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Canto da palavra

 carlos jose

Entrevistador: Carlos José Rosa Moreira

Acadêmico titular da ANL, atual ocupante da Cadeira 32

 

Entrevistado: Bruno Lima

Carioca. Possui especialização e mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor de Pretérito imperfeito (Editora Multifoco. 2013. Rio de Janeiro. RJ. Poemas.)

 

CJRM) Você é um homem do meio urbano. É ele sua matéria-prima?

 

BL) Sim, sou um homem urbano. Nasci e cresci no Rio de Janeiro e, apesar de algumas vezes desejar ir para um lugar mais calmo, não sei se me adaptaria. Uma coisa é passar alguns dias viajando pelo interior, ou mesmo por uma capital de menor porte, outra completamente diferente é viver lá, pelo menos para mim. Todavia, não posso dizer que o meio urbano seja a matéria-prima para minha literatura. Já escrevi textos, apesar de poucos, inteiramente influenciado por vivências no campo. Penso que um escritor deve ter como sua matéria-prima a língua, a imaginação, a capacidade de se reinventar em qualquer ambiente, caso contrário seria muito restrita sua literatura. Mas é inegável que minha vivência urbana é responsável por grande parte dos meus escritos.

 

CJRM) Algum livro mudou sua vida, causou-lhe impacto a ponto de iniciar algo novo?

 

BL) Curiosamente, o livro que me tornou um leitor contumaz foi Velejando o Brasil, de Geraldo Tollens Linck, que ganhei ainda criança da minha mãe. É uma não-ficção que narra as viagens de um velejador do Oiapoque ao Chuí. Anos mais tarde, já na graduação, fiquei fascinado pela poesia concreta e, durante um tempo, me dispus a enveredar por essa linha, mas acho que meus poemas concretos não passaram de exercícios, sem nenhuma qualidade, talvez por me faltar alguma maturidade à época. Na prosa, o que mais me agradava, ainda na graduação, eram os clássicos, sobretudo as literaturas francesa e russa, e Kafka, naturalmente. Dentre os brasileiros, Machado, Graciliano, Guimarães Rosa, etc. Eram e são leituras para puro deleite e nenhuma delas despertou em mim o desejo ou a necessidade de iniciar algo novo na minha prática literária. Seria, além de anacrônico, muita presunção de minha parte. Atualmente, após entrar em contato com a autoficção, com autores contemporâneos como Bernardo Carvalho, Ivana Arruda Leite, Silviano Santiago, Cíntia Moscovich, João Gilberto Noll, Marcelo Mirisola, dentre outros prosadores, tenho buscado escrever autoficcionalmente, misturando realidade e ficção e criando uma realidade outra, problematizando os conceitos de real e de ficção. As crônicas que publico em meu blog (ensaiodesi.blogspot.com.br) são todas nessa linha, e ainda tenho um diário acadêmico, escrito enquanto fazia mestrado, que também flerta com essa brincadeira autoficcional. Enfim, acho que foi a autoficção que despertou em mim o desejo de iniciar algo novo, pelo menos na minha prosa.

 

CJRM) Acredita ter influência de algum autor? Pertencer a alguma "família literária"?

 

BL) Acho que afirmar que algum autor influencia meu trabalho seria de certa forma equiparar-me a ele, e não tenho essa pretensão. Na poesia, a primeira poeta que me fez olhar com outros olhos para os versos foi Lena Jesus Ponte, ainda na minha adolescência, antes mesmo de eu ingressar no curso de Letras. Foi seu livro O corpo da poesia que calou fundo em mim. Mas não posso dizer que haja influência direta de sua poesia na minha. Na prosa, os escritores contemporâneos citados acima me mostraram um caminho a seguir, mas acredito que eu desenvolva minha prosa em outra direção, portanto, se há influência, ela é apenas temática, não estilística. 

Quanto a pertencer a uma família literária, não acredito muito nisso, pelo menos na literatura brasileira contemporânea. Como já disse Flávio Carneiro, atualmente não temos mais um projeto literário estético ou ideológico comum, mas sim a coexistência de vários estilos diferentes. Se eu fosse classificado como pertencente a um grupo de escritores, acho que isso se daria apenas por critérios cronológicos, por estar publicando no início do século XXI, como tantos outros. E a diversidade textual talvez seja a grande marca da literatura deste século.

 

CJRM) O que gosta de ler? Costuma reler? Há livros ou trechos aos quais sempre retorna?

 

BL) Sou muito mais um leitor de prosa do que de poesia, mas, na poesia, o último grande poeta que descobri foi Wanderlino Teixeira Leite Netto. Gosto muito de releituras, apesar de atualmente não encontrar tempo para elas. Tenho lido muito literatura brasileira contemporânea e muitos blogs também, onde é possível encontrar excelentes textos de autores completamente ignorados pelas editoras. Um outro tipo de leitura à qual tenho me dedicado bastante no momento são textos teóricos e filosofia, em função de minha pesquisa de doutorado.

 

CJRM) Há alguma coisa de "8 ou 80" no seu "Autorretrato". Se isso é certo, como a Literatura se situa entre esses extremos?

 

BL) Se isso é certo ou não deixo a critério dos leitores. A Literatura, a meu ver, é o extremo.

 

CJRM) O prazer de escrever; a dor para escrever. Publicar, vender, as dificuldades de um escritor. Qual o maior retorno que lhe traz escrever?

 

BL) Escrever para mim é muito prazeroso, mas é muito doloroso também, muito sofrido. O que escrever, de que maneira escrever, que palavra utilizar? Como sou muito crítico e sobretudo autocrítico, após o texto pronto peno bastante até finalmente me convencer de que realmente ele está finalizado. Para um autor iniciante, pelo menos em livro solo, como eu, o processo de recusa de editoras e a ausência de uma divulgação mais ampla em suplementos literários são muitas vezes desanimadores. Ainda não obtive nenhuma resenha e/ou crítica, mesmo que desfavorável, mas isso, apesar de frustrante, não é o mais importante. O maior retorno no final das contas é o texto pronto, o ponto final, é, enfim, o processo da escritura em si. É claro que ouvir algum comentário positivo de um leitor é muito regozijante, confere ao trabalho um desfecho feliz, me dá um incentivo para continuar escrevendo, mas isso eu faria com todo o prazer do mundo independentemente de possíveis elogios.

 

CJRM) No poema "Espiral", publicado em "A Cadeira", da Academia Niteroiense de Letras, você demonstra uma preocupação ou uma resignação?

 

BL) Espiral é o primeiro poema de meu livro Pretérito Imperfeito, lançado este ano pela Multifoco. Isso faz sentido ao se analisar as poesias seguintes. Acho que todo mundo que escreve, pinta, encena, canta, toca quer um público, e, em minha opinião, é o leitor quem deverá dizer o que eu pretendi com o poema, abrindo "caminho para possibilidades/ tantas, inexatas".

 

CJRM) Qual o seu maior inimigo quando escreve?

 

BL) Eu mesmo.

 

CJRM) Você tem um projeto Literário?

 

BL) Sim. Estou trabalhando numa poética totalmente diferente do que eu apresentei em Pretérito Imperfeito, mais visual e multimidiática, mas que ainda carece de maior amadurecimento. Também penso em dar sequência à série de crônicas que já publiquei no blog, intitulada Crônicas de um pai de terceira viagem, e transformá-las em livro, mas, para isso, ainda precisaria trabalhar bastante. Tenho "engavetado" o tal "diário acadêmico", que ainda não sei se merece uma publicação. E gostaria também de publicar minha tese de mestrado, que trata das escritas de si e da autoficção, só me falta a editora. Paralelamente a isso, vou alimentando meus blogs. O primeiro, com uma temática literário-cultural, além de poesias e crônicas minhas, contém resenhas de livros que li, filmes que assisti etc. Este blog nasceu como uma continuidade do tal diário acadêmico. Me obrigo a escrever sobre minha parca vida cultural de maneira a ter um mínimo de disciplina. O segundo blog (editorialprimeirapessoa.blogspot.com.br), com um teor mais político-comportamental, é atualizado com muito menos regularidade do que o primeiro, mas nasceu de uma necessidade de expor minhas opiniões acerca do que acontece ao meu redor.

 

CJRM) O que pensa da crítica hoje e aqui no Estado do Rio?

 

BL) Vejo com bons olhos o papel da crítica de um modo geral. A verdadeira crítica não se limita a dizer se a obra é boa ou ruim, mas é ela própria uma nova obra a partir de uma leitura atenta de um texto literário, apontando para caminhos vários e suscitando novas perspectivas para o leitor e muitas vezes para o próprio autor. Nas resenhas que publico em meu blog procuro fazer isso. Há alguns problemas que merecem ser apontados, contudo. Primeiro é que o espaço da crítica nos jornais é cada vez mais restrito, muitas vezes limitando-se a dizer ao leitor se ele deve ou não comprar a obra, o que é muito empobrecedor. E resenha não é sinônimo de crítica, é bom dizer. Segundo é que, via de regra, a crítica especializada restringe-se ou aos autores já canônicos ou aos editados por grandes editoras ou ainda àqueles que possuem bons contatos. Há muito pouco ou nenhum espaço para que jovens e novos escritores sejam agraciados com um texto crítico, uma resenha, ou mesmo uma nota de divulgação. No momento estou buscando divulgar meu livro, o que não tem sido uma tarefa fácil, por exemplo. Ele só está sendo comercializado pelo site da editora, no link http://www.editoramultifoco.com.br/literaturalojadetalhe.php?idLivro=1128&idProduto=1160, e sem uma divulgação ostensiva ele vai acabar no esquecimento. Os blogs mais e mais têm servido como uma ferramenta no sentido de preencher essa lacuna, mas parece-me que esta nova forma de prática textual ainda não é suficiente para que os blogueiros galguem um reconhecimento no meio literário. 

 

CJRM) Há textos (contos, por exemplo), que não se enquadram perfeitamente nos cânones literários, mas são amados pelos leitores. O que pensa disso? O que é mais importante: a crítica ou os leitores?

 

BL) Ambos são importantes. Não podemos esquecer que a crítica é constituída por leitores também. Leitores estes capazes de fomentar e multiplicar o número de leitores, especializados ou não.

 

CJRM) Se tivesse de escolher uma fase da Literatura brasileira para nela permanecer com sua poesia, qual escolheria?

 

BL) Como todas as fases da Literatura Brasileira já passaram, não escolheria nenhuma. Permanecer numa fase significaria estagnar-se, e isso seria o fim da poesia.

 

CJRM) Música e Literatura se autoajudam no seu trabalho?

 

BL) Sem dúvida. Durante anos estudei violão clássico e por pouco não prestei vestibular para música. Os primeiros poemas que escrevi, ainda na adolescência, visavam ser letras de música.

 

CJRM) Alguém disse que a canção acabou. Você concorda?

 

BL) Claro que não. Nem nunca vai acabar. Leonardo Davino é um grande estudioso sobre o tema e, ao contrário dessa afirmativa, postula que ela está mais viva do que nunca, a cada audição recuperando sua aura.

 

CJRM) Se pudesse escolher um lugar em qualquer parte do mundo para recitar sua poesia, que lugar escolheria?

 

BL) Pasárgada, sem dúvida.

 

        

     


 

 

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