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De outros cantos

 

Antônio Augusto de Assis

Nome literário: A. A. de Assis.

Naturalidade: São Fidélis r RJ.

Profissão: Professor universitário (aposentado).

Publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis – 10 volumes (crônicas, ensaios e poemas); O português nosso de cada dia (didático); Poêmica (poemas); Caderno de trovas ; Tábua de trovas.

Integrante da Academia de Letras de Maringá e da União Brasileira de Trovadores (seção de Maringá).

 

Carnaval

 

É sexta-feira,

véspera da folia.

Lá vai Maria.

 

Lá vai lavar em lágrimas

a vida ávida de vida,

sofrida vida dividida

em dívidas e dúvidas.

 

É sábado, é domingo,

é segunda, é terça gorda.

Roda no asfalto o samba,

geme o povo em sobressalto.

Roda rotunda a moça moma,

peitos nus lançando chamas.

Gemem bocas de crianças,

barrigas ocas

mendigando mamas.

Roda impávido o desfile

na avenida multicor.

Gemem pálidos

rostos esquálidos

desfilando a dor.

O sonho roda, geme o horror.

 

O samba-enredo, o medo em roda.

A serpentina, o ser penante.

A passarela, o pária ao lado.

O palanque, a pelanca.

O pandeiro, a pancada.

O sambeiro, o sem-nada.

O tamborim, o camburão.

O saxofone, o saque-sem-fundo.

A fantasia, a mão vazia.

                                    A apoteose, a verminose.

                                    A alegoria, onde a alegria?

 

O trilo do apito,

o grito do aflito,

o confete, o conflito.

 

É quarta-feira, cinzas.

Lá vai Maria.

Lavai, Maria.

Lavai o mundo, Maria.

Lavai o imundo,

mundo imundo vasto mundo,

lavai o mundo, Maria!

Luolhar

 

Duas luas

viu Ismália

na noite em que enlouqueceu:

“viu uma lua no céu,

viu outra lua no mar”.

 

Bem mais louco,

vejo três,

quando me ponho a cismar:

a terceira é a que flutua

tentadoramente nua

na noite do teu olhar.

Terceira infância

Meu neto

me disse um dia:

— Converse comigo, vô,

mas converse como amigo,

mais amigo do que vô.

 

Desfez-se logo a distância.

 

Conversamos.

Conversamos.

Conversamos.

 

Ele na primeira,

eu na terceira infância.

Aurora bela

Da janela do meu quarto

vejo Aurora na janela.

           

Toda tarde, à mesma hora,

Aurora lá.

Que será que ela olhará?

 

Aurora, Aurora,

Aurora bela,

bela Aurora da janela,

Aurora

de olhar sem fim...

 

Se sobrar uma olhadinha,

por favor, olha pra mim!

 

Por um beijo

Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que tenho:

os bons sonhos que sonho, as plantinhas que planto,

a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto,

e o meu verso se acaso houver nele arte e engenho.

 

Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu pranto,

as angústias da luta em que há tanto me empenho,

as saudades da infância e do chão de onde venho,

as promessas que eu faço em segredo ao meu santo.

 

Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz,

minha fé na ternura e no bem que ela faz,

meu apego à esperança e ao que a possa manter.

 

Por um beijo, um só beijo, um momento de amor,

eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor,

o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu ser!

 

 

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