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![]() De outros cantos
Cleo de Oliveira Autor do livro de contos Descontágio, publicado pela Editora Scortecci, nasceu na cidade gaúcha de Novo Hamburgo em 1966. Vem se destacando em concursos literários desde 2002, ano em que resolveu desengavetar seus primeiros contos. De lá para cá, acumula dezenas de participações em antologias, como nas dos no concursos “Contos do Rio 2004” (“Um passeio nos Sonhos”, publicado no Jornal O Globo), “Histórias do Trabalho” (“Ali onde os caminhos se cruzam”) e “Univap 2005” (“Lembranças Circulares”). Venceu importantes concursos como o “Prêmio Habitasul 2005” (com Descontágio). Finalista do “Prêmio Asabeça 2004” e vencedor do de 2006, que proporcionou o lançamento de seu primeiro livro.
Uma vista para os jardins de Arlete
Que cuidasse bem dos jardins e do cachorro. Estes, os dois últimos desejos que Arlete, minha amada, fez pouco antes de partir. Com um jeito dócil ela sempre foi soberana em nossa relação, ocupando todos os espaços possíveis. Por anos minha autonomia foi diminuindo. Cumpria suas ordens com a dedicação de um servo. Agora livre, tenho meu próprio caminho a seguir. Seria simples fingir que não ouvi seus desejos. Mas não é o que farei. Deixando os pormenores dos nossos anos de lado realizarei os seus pedidos, como uma homenagem. A bem da verdade, já os estou cumprindo. As petúnias e os cravos estão lindíssimos. Replantarei as gérberas em breve. A grama é um tapete elegante. As orquídeas pendem floridas. Tudo da maneira que ela fazia. Gostava de flores, a Arlete. Apolo, o dálmata, não assimilou muito bem a perda. Fiel como todo cão, trazia uma umidade nos olhos que qualquer um poderia supor do que se tratava. Passou três dias sem comer, deitado, fazendo travesseiro das patas. A respiração alternando entre ofegante e estancada. Vagava por todas as peças. Chegando às portas dava uma espiada e saía, não encontrando o que procurava. No quarto dia, aninhou-se ao meu lado no sofá, aceitando um pedaço de cachorro-quente. Era a primeira reação que percebia nele e isto me deixou aliviado, não estava preparado para um novo velório. No dia seguinte comeu um bocado do meu bife, mas isto só aconteceu quando lhe ofereci meu prato. Após esta descoberta passei a colocar sua comida num prato idêntico, que era o de Arlete. Alcançando a mesa amparado por duas cadeiras, passou a fazer suas refeições com extrema voracidade. Engorda a olhos vistos. Apolo não dormia. O barulho de suas unhas impedia o meu sono também. Solucionei logo este problema, com a sapiência que nos diferencia, colocando o seu colchão sobre a cama no espaço vago ao meu lado. Aninhou-se feito um anjo. Parecia estranho, mas mesmo bem acomodado ficava inquieto. Descobri que sofria com a claridade do quarto. Ofereci-lhe a máscara de seda, outra herança de Arlete que como ele tinha problemas com a luz. Fiquei satisfeito com as soluções encontradas. Apolo também. Por esta época notei que seu olhar estava diferente. Não saberia dizer ao certo como, apenas que era diferente. Certa madrugada acordei com seus rosnados ao lado da cama. Seus olhos tinham sede. Em seguida mostrou com inesperada hostilidade uma dentadura impecável de punhais pequeninos. Nada o serenava. Saí dali andando de costas e lentamente. À medida que eu me afastava da cama ele ia se acalmando. A partir de então a sala de televisão passou a ser o meu quarto. Pobre Apolo, a perda lhe abalara os instintos. Mas eu soube dar uma resposta à altura e de novo contornava seus problemas. Pequenos detalhes não poderiam abalar nossa relação, nem me impediriam de cumprir os desejos de minha amada. Nossa alegria diária, minha e de Arlete, depois de um árduo dia de trabalho sempre fora um espumante mergulho na banheira. Aquela sensação de retorno à calidez do útero materno. Apolo também descobriu este prazer, selecionando meus óleos e sais de banho com estranha astúcia. É um merecido descanso. Não lhe tiro a razão, ameniza o seu sofrimento. Nos últimos tempos não tem tolerado minha presença na mesa, mas isto é irrelevante. Com a vida atribulada que levo acabo fazendo poucas refeições em casa. Não há motivo para maiores conflitos. Desde que ele se alimente bem eu fico satisfeito. Agora, quando não está tocando sua cítara, se interessa por leitura. Devora a biblioteca de Arlete com olhos curiosos. Consumiu Ana Karenina em apenas dois dias. Sabendo que eu tinha alguma vocação, exigiu-me que escrevesse para ele. Mostrei-lhe algumas crônicas que não foram bem aceitas. Histórias de bichos, ele queria. Indiquei-lhe George Orwell, mas isto me custou uma semana de cativeiro neste quarto. Daqui tenho uma excelente vista da rua e posso inclusive ver os jardins de Arlete, em frente à casa. Tem sido um pouco monótono, mas não me queixo. Estava realmente precisando de um tempo só para mim. Sexta-feira saio daqui, direto fazer minhas vacinas. Pedi uma tosa também, mas ele disse para eu largar mão destas vaidades.
Agora, Irene somos eu
Irene se foi. No começo achei que era mais um de seus desmaios, mas agora, o rosto cianótico e as veias desabitadas no pescoço não deixam dúvidas. Logo estaremos juntas e isto me consola. Aproveitarei as horas que me restam para perpetuar a nossa história que poucos conheceram. Percebo sua morte nos invadindo, as pontas frias dos dedos quase não sentem a caneta. Nossa vida merecia muito mais, sobretudo por ter sido tão diferente, mas o tempo não permite. Espero pelo menos que seja suficiente para a memória mais importante — e sobre isto tenho certeza, Irene concordaria —, o dia em que recebemos a primeira visita ao nosso jardim. Tivemos uma vida noturna, acostumada às flores já fechadas e amigos recolhidos, sempre longe dos olhos curiosos. As aulas eram recebidas em casa, onde também vinha a senhora que fazia os vestidos adequados a nossa compleição singular. A rotina só era interrompida quando íamos ao doutor Castro, o médico que sempre nos acompanhou. Em sua sala de espera, enquanto líamos uma daquelas revistas sem capa, apareceu o dinamarquês. Clausen falava um português muito ruim, quase insuficiente para se comunicar. Sentou ao lado falando sem nos olhar, algo sobre o dia chuvoso ou coisa parecida. Irene tomou a frente. Era comum responder às perguntas antes que eu preparasse a primeira sílaba. Após alguns minutos envolvido em sua bruma nórdica e percebendo alguma hospitalidade, Clausen veio com outras perguntas, dessa vez mais inteligentes, e que não se interessavam pela nossa aparência — isto para nós era incrível. Sopramos de volta algumas respostas articuladas, vindas de quem sabia muito sobre todos os assuntos, dividendos da nossa vida reclusa e repleta de leituras. Em minutos era uma conversa sem amarras, onde a cada pergunta ele olhava para uma e outra, como querendo saber a opinião das duas, não podia entender que a resposta seria a mesma. Éramos uma só também nas idéias, ainda que isso nos tivesse custado noites inteiras de discussão. Mas ali, na companhia de outros, especialmente de estranhos, seríamos a mesma voz, resolvendo as bifurcações com a única solução possível, convergente, um dos tantos truques de mamãe para sermos aceitas com mais naturalidade. Tudo aconteceu tão depressa que nem percebemos quando Clausen estava dentro de nossa casa, fazendo jantares exóticos coroados com karamelrand med is, uma espécie de pudim de caramelo com sorvete. Ao fundo as melodias da islandesa Björk, cujas músicas ele cantarolava o tempo todo. Dizia trabalhar com madeira e um dia apareceu com uma miniatura do nosso sobrado, eu e Irene na janela. Pela primeira vez nos sentíamos naturais diante de uma pessoa que não fosse mamãe ou o doutor Castro. E então o próximo encontro, a contemplação de um filme de Tarkovsky, é assim que ele falava, “contemplar um filme russo”. Aprendemos a adorar aquela monotonia. Cada sessão rendia horas de discussão, roçar de mãos e vinhos extraviados. Irene bebia mais rápido, eu me embriagava mais, e isto não fazia muita diferença para nós que nos sentíamos tão iguais. Na verdade, nesses momentos não existia algo que nos pertencesse, estávamos entregues. E tudo vinha com tanta empatia, como acontece com velhos conhecidos, brigávamos inclusive. Como bons irmãos ou marido e mulheres. Até o dia no qual me percebi sentindo ciúme, enquanto Clausen conversava conosco olhando mais para ela. E a minha fixação matemática fez cronometrar os segundos dedicados a Irene, compará-los com os meus e confirmar as suspeitas. A mais falante, os olhos se revirando de alegria, devia ser por isso, nada mais. Uma falando a cada vez, o que parecia ser uma forma de convivência amigável, para mim vinha se tornando um martírio. Poderia alterar essa lógica, ainda que para isso quebrasse uma de nossas principais regras. Não seguiria levando-a em consideração pelo simples fato de que vinha em meu prejuízo. Irene tirava proveito dela, por ter o raciocínio mais rápido e a língua mais afiada, além de ser mais bonita. Talvez a primeira vez em que pensei nela como outra, a rival, e mais bonita. O olho que não era tão caído, a boca menos repuxada quando sorria. Resolvi tomar a dianteira no próximo encontro com Clausen. Seria a nossa, a minha independência. Neste dia tentei ser a mais saliente, insinuante, buscando uma relação vertiginosa. Tínhamos tomado uma garrafa e meia de cabernet quando ele pôs a mão na coxa de Irene, o que nos causou um calafrio em mim. Ela não, sorria lasciva, sabendo aonde chegaria com aquelas licenciosidades. Percebi então todo o jogo em que havia me metido, mas já não sabia se tinha sido induzida. Apenas senti Clausen pegando a minha mão e colocando-a em sua virilha. Suávamos e eu sentia as flores do nosso jardim tremulando de prazer. Irene não conseguia segurar o arquejo, fazendo parecer que eu também tremia. Mas não, eu estava tranqüila e mantinha o meu lado firme, rígido de vontade. Primeiro ele a beijou, eu não me contive, e no mesmo instante dei pequenas mordidas no pescoço de Clausen, logo abaixo da nuca, e pousei ali a face. Estávamos os três suados, com unhas cravadas nos poros arrepiados. A sensação de gozo parecia revezar-se entre ambas. Nosso jardim estava pronto para aquela descoberta que aguardara vinte e nove anos e da qual já havíamos quase desistido. As dificuldades haviam nos roubado as esperanças. Meia garrafa de vinho adiante e estávamos engalfinhados no sofá, nós duas a lhe roçar os lados do rosto, nossos pescoços enlaçando o dele. Clausen gritava como um verdadeiro viquingue. Irene também, entrelaçando sua mão com a minha logo acima da cabeça dele. Era a realização de uma fantasia, a dois, a três, como se fossemos um só. Dezessete semanas até ele desaparecer, recusando todo o prestígio que tinha. Deixou os filmes russos, Björk, a miniatura do sobrado. Levou a nossa flor mais rara, a primeira. Talvez com o tempo tenha ficado perplexo com essa experiência única, a realização de um sonho, como numa fábula nórdica. Irene nunca mais fomos a mesma, eu chorávamos esperando que a vida renunciasse a ser tão complicada. Parecia tudo tão simples, nós, ele, tudo vinha dando certo e sem motivo para mudanças. Mas houve a viagem urgente para a Dinamarca, as cartas cada vez mais espaçadas até cessarem, e ela foi se afundando de tal forma que me arrastava, como se fosse possível acontecer de outra maneira, ou se eu realmente pudesse me livrar dos efeitos de sua queda. Agora, tudo se consuma, Irene me aguardando logo adiante, eu aqui tentando contar a nossa história, as pernas como pontas de uma imensa geleira que se vai azulando, cada vez mais fria, mas como uma só, sempre seremos uma e a mesma. O frio vem até o abdome, onde eu pensava que nos dividíamos. Pensava, agora mais do que nunca sei que não. É ali, exatamente a partir dali, onde floresce o nosso jardim, que passamos a estar mais unidas. Ali, desde aquele dia abrasador, Irene somos eu.
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