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De outros cantos

 

De outros cantos

 

            Roberto Márcio Pimenta

            Nasceu em Belo Horizonte (MG). É formado e pós-graduado em Letras. Exerceu a profissão lecionando em faculdades e cursinhos de Belo Horizonte. É detentor de vários títulos em concursos de contos e tem textos publicados na Internet, revistas e jornais. Teve atuação destacada em mais de vinte e cinco concursos e participação em dezenove antologias. Em Belo Horizonte, trabalhou como revisor de textos. Atualmente, reside em Jacaraípe (ES), em frente ao mar, de onde tem retirado suas inspirações.

 

Gralhas nos campos de trigo

 

Vejo-me mateando solito, e, no vapor que sai da cuia, deixo meus pensamentos serem levados para longe.

Longe? Sim, para um tempo que ninguém pôde apagar, lá nos campos de trigo. Lembro-me do meu pai, homem de terra, abrigando árvores, rasgando o chão, semeando o trigo e nos alimentando. Lembro-me da sua pele clara e os cabelos louros, o seu jeito de ver o mundo em um grão e o céu em uma flor silvestre.

Coloco meus olhos neste passado tão distante e revejo a cena numa fresta:

— As gralhas voltaram! – Gritou o meu pai meneando o facão.

Movendo a cabeça, em direção à cumeeira, percebi pontos como grãos de mostarda se locomovendo no céu. Eram as aves. Estavam chegando. O pai gritava pelos outros.

Chinocas fachudaças, de peitos de laranja, a china seiúda, a gurizada em desordem, avios de caça e o latir contrastante dos cuscos escandalizavam a tarde. Os homens tomaram posições.

Um tiro chumbeou para cima das gralhas. Seguiu-se o matraquear seco das carabinas,ecoando, mesclando-se aos gritos da gurizada, dos cães e dos pássaros caindo, manchando de vermelho o chão.

Momentos depois, as aves debandaram.

À noite, churrascada. Duas mantas de carne chamuscadas, fumarentas, ao espeto. O cheiro das carnes sangrentas, mal passadas, impregnava o terreiro da casa quando o pai enrolou um cigarro crioulo e me chamou:

— Filho! Quando lavramos a terra e semeamos, elas não estavam aqui. Agora, na colheita, aparecem. É sempre assim. Os homens também agem desta maneira.

Dias depois, terminada a colheita, ensacado e armazenado o trigo, o pai descansou. Eu não. Ficava acordado, pensando em alguma coisa ruim que pudesse acontecer.

Um dia eu o vi acordado, à noite, aguardando o amanhecer. Faltava muito para clarear. A nova luz ainda deveria percorrer bom tempo sobre coxilhas e repechos, passar sobre arroios que cortavam a noite às cegas, pastos, montes e casarios.

            Abancado sobre um cepo, o pai mateava e fumava com gestos precisos. O cusco começou a latir e ele, que era da raça dos que batem, deu-lhe um pontapé nas costelas. O cão saiu ganindo.

 Daí a pouco, apareceram os primeiros sinais de vida do dia que estava para chegar. Nascia um sol anêmico-amarelado.

— Há algo errado!... Os quero-queros acordaram mais cedo e debandavam para o Sul em direção ao Uruguai! – disse o pai olhando o bando no horizonte.

Carecia de alguém que enxergasse melhor e eu me prestava a tal incumbência, pois estava acostumado e ver os olhos dos pássaros entre as ramagens, as formigas preguiçosas e, creiam, diziam, “que era capaz de distinguir o piolho da piolha”.

Meu pai chamou-me, sem saber que o vigiava por detrás da veneziana.

Saí e subi no seu ombro e, só então, percebi que nos ombros dos pais podemos ver mais longe... E me senti assim: um gigante.

Depois eu disse:

— Pai! São pontos no chão. Vários! Parecem minúsculos cavalos.

Imediatamente o pai soou o alarme. Ele sabia que, de longe, um homem num cavalo é um cavalo.

As gralhas voltaram. Outras gralhas, eu imaginei...

Agora havia algo cruento em cada rosto. Era como o mio-mio, erva tóxica, que crescia em reboleiras nos campos de plantação que o gado e cavalos comem e morrem completamente inchados e sedentos.

Os homens se espalharam. Alguns, como os gatos, fincaram-se entre as quinchas das casas, atrás dos tabiques, sobre as árvores, além das pedras e nos buracos que lhes serviam de trincheiras. As mulheres e crianças foram colocadas no porão da casa. Quanto a mim, por ser um piazito magrelo, ossos largos na cara, prometendo um dia recordar meu pai, foi sugerido que ficasse dentro do poço.

Eu não queria. Desejava ver a vitória do pai. Mas ele não quis. Teimou e mandou. Obedeci. Chorei e fui para o lugar determinado.

O poço? Sim. Tinha um bocal assimétrico, com pedras justapostas, encaixadas, com dois pilares até o centro de onde partia a entrada para uma pequena galeria, num traçado semelhante às minas de carvão, porém com galeria única de um metro e meio de altura por dois e vinte de comprimento, acomodando, deste modo, uma criança em pé ou um homem de joelhos. Sobre o bocal, uma viga de ferro apoiada em dois madeirames de onde desciam, por uma carretilha, a corda e a caçamba. No fundo havia uma água azulada, salobra, com um frescor constante que se renovava a cada retirada de balde. A bem da verdade, este poço existia somente como estratégia de esconderijo.

Enquanto descia ouvia os tiros, os latidos dos cuscos e os gritos. Acomodei-me no cubículo. Daquele lugar frio e úmido, conseguia escutar a voz do meu pai gritando e o imaginava combatendo.

Lembrei-me dele falando-me sobre a minha mãe: Era a estampa de uma fêmea perfeita. Tinha algo de santa no olhar e... Eram felizes. Um dia chegou um tropeiro, piscou para mãe e deu-lhe anel de prata. Depois a levou junto com seus animais. E o pai disse que “ Uma vaca a menos não ia fazer falta”...

Tempos depois ele recebeu as roupas da mãe com uma carta dizendo que ela caíra no desfiladeiro junto a um animal da tropa. O pai não acreditou e não deu trela. Sabia que um dia o ladrão-tropeiro voltaria para tomar a colheita.

Enquanto pensava a temperatura caía. Horas depois o frio e a umidade começaram, aliados ao meu temor, a me provocar hipotermia. Precisava me aquecer. Além disto, o ar rarefeito do poço acelerava meu coração, provocando em mim um estado de embriaguez. A tontura expulsava de mim o homem que eu era. Os cães já não latiam ou eu não os ouvia. Nem tampouco ouvia a voz do meu pai. Os tiros rarearam até sumirem. Escutava somente os pingos da água caindo no fundo do poço, o assovio do vento na corda.

Minhas têmporas latejavam, sentia um gosto de cobre na boca, um estado febril e muita vontade de sair dali. Mas como?

Lentamente enrolei a corda ao redor do meu corpo, pisei nas pedras de granito e, com parcimônia nos gestos, economizei cada centímetro da escalada. Aproveitava o movimento do corpo, batendo nas pedras para galgar alguns centímetros. Deste modo nem sei quanto tempo levei para chegar ao topo onde havia a tampa do bocal. Com esforço sobre-humano consegui sentar-me no bocal, ofegando, pestanejando.

Dei alguns passos, cambaleei, olhei ao redor. O primeiro olhar nada me restituiu. Os únicos seres vivos que vi foram duas minhocas, galinhas ciscando o esterco deixado pelos cavalos, alguns pássaros grudados no azul. Pisquei os olhos, enchi o pulmão de ar e pude ver melhor. À minha frente moscas varejeiras sobre um corpo. Mais a frente outro, mais um, dois, três, quinze, vários corpos.

Extenuado, diante da horrível paisagem, procuro meu pai entre os mortos.

Encontrei-o no paiol com a cabeça esfacelada e o sangue sobre o trigo. Ao lado, outro cadáver – uma mulher parecida comigo, vestida de tropeiro. Olhei-a com ternura de filho ausente, toquei o rosto do pai e deixei o pranto romper...

Retorno ao tempo presente.

No vapor que sai da cuia, deixo meus pensamentos serem levados para longe...

E num campo de trigo qualquer, as gralhas continuam atacando...

 

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