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De outros cantos

 

Hyeróclio Virgílio de Carvalho Barros

 

            Reside em sua terra natal, o município fluminense de Quatis. Em seu tempo de estudante, frequentou rodas de publicitários e jornalistas na cidade de São Paulo (SP), quando conheceu Emílio Pelosi, por quem chegou à empresa Transaco, de propriedade de Octavio Frias de Oliveira, então prestadora de serviços à Folha da Manhã S.A. Para as organizações de Octavio Frias, que acabou por adquirir a Folha da Manhã, trabalhou por cerca de 20 anos na área de representação comercial. Transferido para a cidade do Rio de Janeiro (RJ), chegou à direção da TV Excelsior, exercida de 1968 a 1970. Em Barra Mansa (RJ), militou na imprensa local, presidiu o Rotary Clube e o Barra Mansa Futebol Clube, além de haver atuado como diretor da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril em duas gestões. É autor de dois livros editados: História e histórias de Quatis e Futebol: paixão de ontem, de hoje e de sempre (Quatis Futebol Clube – sua história e outras histórias).

 

Quatis e personalidades da vida brasileira

Washington Luiz

 

            O casal José Leite / Francisca Teixeira Leite, anfitrião dos mais requintados, tinha o hábito de abrir os salões de sua fazenda Sant`Anna da Cachoeira, recebendo para faustosas festas a que compareciam a sociedade quatiense e convivas de Barra Mansa e Resende. Eram reuniões com mesa farta e bebidas importadas, animadas por orquestras até do Rio de Janeiro. Em uma dessas etapas estava presente o promotor público de Barra Mansa, Dr. Washington Luiz Pereira de Souza. Vaidoso, considerado bonitão e elegante, o jovem advogado vivia a lua de mel com o importante cargo público. De temperamento autoritário, que beirava arrogância, protagonizou incidente na festa a que fora convidado, menos pela posição oficial que não impressionava aos anfitriões, família de maior tradição, de riqueza sem par, e mais pelo relacionamento que desfrutava junto aos Hipólito Ramos, de Barra Mansa, amigos do coronel José Leite e D. Chiquinha Leite, como era mais conhecida.

            Durante o baile, após o jantar, o Dr. Washington Luiz, arrogante e presunçoso, tinha comportamento que não agradava aos presentes, chegando à pretensão de interferir junto à orquestra para a mudança das músicas executadas. Alertada pelo maestro dos intentos do promotor, a anfitriã, que não possuía papas na língua, dirigiu-se ao atrevido, chamando-lhe a atenção e advertindo-o para que tivesse conduta mais moderada, condizente com o ambiente em que estava. Não lhe cabia, ainda, dar ordens à orquestra. Era apenas convidado e como convidado se portasse. O jovem promotor não gostou da reprimenda, respondeu com rispidez às palavras de D. Chiquinha, o que a obrigou a dar-lhe um bofetão. Aturdido, rosto em fogo, o impetuoso promotor ouviu mais: que se retirasse imediatamente da festa, que fosse plantar batatas e não mais voltasse. Da fazenda foi-lhe dada condução só até Quatis e não Floriano, onde aguardaria o trem para Barra Mansa. E assim, a pé, humilhado, face ardendo, com as palavras duras de D. Chiquinha a martelar-lhe os ouvidos, lá se foi o promotor público estrada afora.

            Em Barra Mansa, na segunda-feira, mal se abriram as portas do Fórum, ali entrava um Dr. Washington Luiz abatido, ainda sob o impacto do sucedido em Quatis, já com o pedido de exoneração assinado, que, entregue a quem de direito, colocava ponto final na sua curta carreira no ministério público.

            Nunca um bofetão foi tão bem aplicado e tantos benefícios causou a quem o recebeu, como o proferido por D. Chiquinha. A altanaria, a dignidade, a coragem de uma mulher quatiense influíram decisivamente na história política do Brasil.

            Afastado de Barra Mansa, seguindo a sugestão de D. Chiquinha, que o subconsciente guardava, mudou-se o Dr. Washington Luiz para Batatais, interior de São Paulo, culminando com a presidência da República. Abençoados, o bofetão e o conselho, para o cidadão Washington Luiz. Quanto aos outros, que dele sofreram as consequências...

 

Extraído de História e histórias de Quatis. Editoração Editora Ltda. Rio de Janeiro, RJ. 2003.

 

 

Virgínia Lane

 

            Nos anos 1950, o Rio de Janeiro era festa só. O teatro de revista, com charme irresistível, montava espetáculos, ano após ano. Misturava, na conta certa, o vaudeville com a opereta, o circo com o cabaré, e seus diálogos tratavam de assuntos do cotidiano do povo: carestia, falta d`água, corrupção, a bagunça do serviço público.

            Ao longo da década de 1950, a revista documentou os momentos mais palpitantes da vida pública brasileira. Atrizes, famosas pela beleza e talento, como Virgínia Lane, Mara Rúbia, Nélia Paula, Íris Bruzzi, comandavam os espetáculos produzidos por Walter Pinto. Para todos os gostos uma especialidade. Mara Rúbia fazia o tipo brejeiro; Virgínia Lane, o malicioso; Dercy Gonçalves, o pornográfico.

            Mas o objeto de nosso interesse é a atriz Virgínia Lane. Mignon, de corpo escultural, bonita, com jeito de garota inocente. Por muito tempo foi a principal vedete do Brasil. Vindo de uma excursão artística ao Uruguai, ao desembarcar, o funcionário da alfândega que a atendeu foi o quatiense Alexandre Oliveira. De família onde os homens sempre tiveram estampa: altos, fortes, olhos azuis, educação esmerada. Alexandre impressionou a atriz de tal forma que logo viviam romance arrebatador.

            Realmente, Virgínia Lane e Alexandre formavam par de chamar atenção. Quando das férias artísticas da vedete, costumavam passá-las em Quatis, ao lado dos parentes do Alexandre. A atriz se encantou tanto com o lugar que adquiriu terreno onde pretendeu construir.

            Como é próprio de pessoas do mundo artístico, sem filhos, dedicava Virgínia Lane muito carinho e mimo a um cãozinho, desses minicães de madame, a que chamava Ki-bom. Vivia o Ki-bom nos braços da atriz, raramente indo ao chão. Ao passar por nossos vira-latas, soltos pelas ruas e na praça frente ao hotel onde se hospedava, e ali muitos vadiavam, a Virgínia Lane se cercava de cuidados, temerosa de um ataque ao querido cão.

            Certa manhã, para desespero da dona e azar seu, o Ki-bom despenca dos braços que o acolhiam, cai ao chão e procura a companhia dos vira-latas. Antes que pudesse ser recolhido, é atacado ferozmente pelos cães, que pareciam estar de olho nele há tempos, invejosos dos luxos e rapapés que recebia.

            Não fora a rápida ação de alguns moleques que retiraram o Ki-bom da cainçalha, ele seria cadáver. O escândalo foi de uma verdadeira atriz. Gritos, choros, imprecações dignas dos palcos da Praça Tiradentes, apelos dramáticos por um veterinário, exigências de que o amado Alexandre matasse os selvagens vira-latas, tudo isso foi visto e ouvido. Veterinário não existia. A solução, levar o Ki-bom à farmácia, foi tomada. Seu Mazico já os esperava, pois ouvira os latidos seguidos da gritaria e, deixando os afazeres, estava à porta. A seu jeito, franco e aberto, nada simpático, declarou que não era veterinário e faria apenas curativo que amenizasse o estrago produzido, e que procurassem em Barra Mansa um especialista. Curativo feito, sugestão aceita, seguiram não para Barra Mansa e, sim, para o Rio de Janeiro, onde melhor cuidariam do Ki-bom, a essas alturas quase derretido pela perda contínua de sangue.

            Salvou-se? Morreu? Não sei. O certo é que Virgínia Lane nunca mais voltou a Quatis e logo vendia o terreno onde construiria casa.

 

(Textos constantes  de História e histórias de Quatis. Editoração Editora Ltda. Rio de Janeiro, RJ. 2003).

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