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![]() De outros cantos (Seção destinada à publicação de textos de autores não residentes em Niterói).
Aguinaldo Araújo Ramos ou Guina Ramos ou Aguinaldo Ramos. Fotojornalista (Bloch e JB), freelancer na imprensa e empresas. Fez Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), pós-graduação em Fotografia nas Ciências Sociais (UCAM) e mestrado em História Comparada (PPGHC/IFCS/UFRJ). Vice-presidente da ARFOC-Rio, associação dos foto e cinejornalistas. Cria com fotos e textos (série Livri, www.livri.blogspot.com) e em investimentos literários. Finalista do Prêmio SESC de Literatura 2005, categoria Romance. Um dos dez finalistas do Concurso Contos do Rio, Prosa & Verso, jornal O Globo, 2006. Quinto colocado no Concurso José Cândido de Carvalho (Campos de Goytacazes, RJ, 2006). Primeiro lugar no Concurso Literário Teixeira e Souza (Cabo Frio, RJ, 2007). Membro de Curabula Livroclube, http://curabulalivroclube.blogspot.com. Coautor de “Apoena – o homem que enxerga longe”, Goiânia: UCG, 2007 (www.apoenaeocaos.blogspot.com). Publicou em 2009 o livro de contos "Rio de Amores" (www.riodeamores.blogspot.com) e o romance "O Jogo do Resta Um - romance sócio-antropológico quase histórico, pouco político, meio filosófico, muito econômico" (http://www.ojogodoresta1.blogspot.com).
Maria-voa!
— Um metro, cinquenta e um e meio. — E meio?... Você faz questão deste “meio”?... Por quê?... Não quer assumir que é baixinha?... — Eu não!... É só questão de justiça. Não me incomoda, não... Se eu não fosse pequena, não voava... — Voava?... Ah, você voa?... Já voou... Por acaso, você é bruxa?... — Já voei... Podem não acreditar... Foi num jogo de futebol, no Maracanã. Jogo da seleção. Muita gente... Mais do que nos jogos de clube que eu tinha ido. Fui com um antigo namorado. Na rampa, um congestionamento de gente... Alguma passagem, parece que estava fechada, sei lá... Foi apertando... Meu namorado atrás de mim, um amigo nosso à frente. É, tem muita mão-boba nessas horas... Devagarinho, a multidão se moveu. Começou uma espécie de uivo, baixinho. O pessoal zoando... Crescia o som junto com o movimento. Quando vi, estava sendo transportada pela massa, em direção ao acesso à arquibancada. E não conseguia botar os pés no chão!... Tentava, mas não conseguia... Só aterrizei na arquibancada, quando já se via o campo lá embaixo. Esse tempo todo, estava voando... Foi incrível... Alguma de vocês, por acaso, já voou?... — Maria, que história mais boba... — É, pode ser... Mas, acontece que eu voei... Vocês, que são grandes, não...
Jogo de Estréia
(...)— Mariana. (...)— Sete, faço oito mês que vem. (...)— Fluminense, né, páie?... — Opáie, seu amigo vai ao jogo? (...)— Eu vou! (...)— Maracanã! (...)— Gosto! Acho bonito. É da cultura da gente. (...)— Eu jogo! Na escola. (...)— Atacante. (...)— Gosto de fazer gol, ué?... (...)— Ah, um de bicicleta. A goleira me empurrou, eu caí de costas... Puxei a bola por cima de mim... (...)— Não. Os dois têm jeito, meninos e meninas. Depende da pessoa. (...)— Eu sempre digo: ficam três marcando! Mas vai todo mundo junto atrás da bola... Tem que organizar. (...)— De goleira, também. Que sou alta... (...)— Ah, não. Se me jogasse na bola, quebrava um braço por jogo. — Vem com a gente!... (...) - Tá, tchau! --- — Esse ônibus tá muito cheio, páie! (...)— Que bagunça, essa torcida... — Páie, eles tão gritando palavrão! (...)— Não gosto, não... — Falta muito pra chegar? (...)— Vou tampar o ouvido. — Páie, ainda tou ouvindo... (...)— Chegamos?... Até que enfim! (...)— Páie, se é pra xingar, eu não torço não... --- (...)— Cachorro-quente! (...)— Suco de quê? (...)— Goiaba é o que eu gosto mais. — Páie, cabe todo mundo lá?... (...)— É, é um portão grande... (...)— Caramba, que rampa! Não sei se “guento” chegar lá em cima não... — Por aqui, chega no campo?... (...)— Ah, arquibancada... Quê que é...?... Puxa, é alto, aqui. O campo é lá longe... É verdinho, né?... — O jogo, demora a começar?... (...) — Páie, eu queria um sorvete... (...)— De chocolate! --- — Páie, quê que foi? (...)— Ah, é mesmo! Olha lá o Fluminense! (...)— Tô gostando! O que eu mais gosto é cor. (...)— Bandeira, uniforme... (...)— Uniforme é bonito. Preto e branco é que não combina... (...)— Não. Uniforme de Vasco e Botafogo é bonito. (...)— Vermelho e preto, combina! É Flamengo, mas combina... (...)— Combina: vermelho e verde! (...)— Grená? Quê que é grená?... (...)— Ah!, grená e verde! (...)— O da seleção brasileira. Também é bonito. --- — Páie, pra quê que eles tão gritando?... Nem começou o jogo... (...)— Pois eu só vou torcer na hora do jogo! — Páie! Eles tão xingando! (...)— E esse barulho todo não atrapalha os jogadores? (...)— E por que todo o mundo tem um radinho? Não tão vendo o jogo?... (...)— É chato, esse barulho, páie. Bate tambor o tempo todo aquele ali, ó... — Páie, pede a ele lá... (...)— Você podia... (...)— Ah, tá... --- — Páie, vam’bora?... (...)— É que não dá pra ver direito! — Páie, manda o moço parar de tocar o tambor! (...)— Mas, eu quero!... (...)— Que barulhão! — Moço, pára de tocar esse tambor! Ei, moço!... Ele não pára, páie... — Páie, eles tão xingando de novo! Diz pra parar... — Páie, você também tá gritando palavrão... (...)— Não! Quero ir embora! (...)— Eu quero ir! (...)— Choro, sim! Eu quero ir embora... ... (...)— Mas, páie, quinze minutos é pouco?... Você queria ver mais?... Eu vi muito... Teve uma hora lá que quase fizeram um gol... (...)— Não, páie, eu gostei. É legal. Tem empolgação... (...) - Eu até queria ficar... --- — Esse ônibus tá vazio, né, páie?... Quieto... — Páie, sabe duma coisa?... Gostei do Maracanã. (...)— Sério, páie! --- — Páie, quando tiver outro jogo... Você me leva?...
Grã Decisão: Viradas
— Gol nada... É de lei. Tempo jogado: quem não faz, leva. Se arrebentou o América, danado. O diabo esfregava o olho e o Evaristo, o tal do..., ciscou – imagine, quarentetrês, segundo tempo –, sentou o pé, fora da área. Pompéia, contido no susto, atrasou o vôo do Constellation, o desespero no braço esticado. Um a zero: chorado, mas foi... Não me dissera isso meu pai, do Flamengo ganhar... Dos pintos, tá bem, o primeiro milho: deve ter dito... Lembro não. Nem do jogo. Li no jornal, há pouco. Sô sabe, escasseiam os detalhes da mente. Cinquenta anos agora, 1956 foi ano marcante mermo... Rosa até desabrochou, já li demais... Digo: sabia não, essa da final de 55 em 56... Vinha desd’Agosto, exagero de campeonato esticado, só ‘cabou em Abril. Três turnos e melhor de três. E o Flamengo na ganância do tri. Promessa de beira de caixão... Sério! Há pouco morria, em decisiva cesta vitoriosa de basquete, Gilberto Cardoso, o presidente. É... Paixão faz mal ao coração... O tri do Fla, era treta?... Por meu pai morriam espetados no tridente. Achei que sim: endiabrado, o América. Me catequizava, nada esportivo, meu pai... Ganhei escudim. De alfinete grosso, pontudo, podia fazer furo no peito... Pai me espetava na camisa, jeitoso. Redondim, o escudim, o do América: farol vermelho, risco branco à volta, sigla AFC ajeitada dentro, letras retas mesmo nas curvas. Ah, ô... O do Flamengo, não. Travoso, ponta de faca afinando pra baixo, faixa preta e vermelha, e outra e outra, como se não parasse... No canto do canto um CRF engrunhado, pontas das letras entortadas pra dentro. Sincero? Uma angústia... O segundo jogo? Domingo seguinte. Tempo, de algum jeito, passou no meio... Ouvi no paralelepípedo da rua, vizinho botava o rádio na porta. “Será diferente, pai?”... Olha só a virada! Acertaram em cheio: deram de cinco! Sô, cinco a um, num é muito?... Americão tinhoso, galhardo mermo!... Cinco... Cinco anos, eu... Ah, há cinquenta... Se fiquei contente?... Lembro não. Se era América? Era?... É... Não de todo... Até não era. Meu pai me fazia ser. Podia ser outra coisa... Lembro de raiva escondida. Penso no corte. Corte de cabelo, o senhor sabe, um topetinho. Cabeça raspada, o tufo de cabelo no cocuruto. Hoje, tanto faz. Pra mim, era castigo. Ranzinzice de pai velho, a cara amarrada... Eu? Quinto filho. Descrevo, se sei: olho vivo, dois dentões na frente, calção de elástico, camisa de botão e bolsinho, muito antes da camiseta... Os irmãos, nenhum americano. Escapuliram... Meu pai? Calça de pano riscado a giz, camisa apertada, mão calosa... Motorista. Caminhão. Diabos!... Cinco a um. Os cinco gols, cada atacante carcou, manos, um: Canário, pianim, pisando leve; Romeiro, chegado nas graças; Leônidas, bom cabeceador, o que chamavam da Selva – não aquele da Silva, fera dos anos 40 –; Alarcón, azougue, de dez nas costas; e Ferreira, que batia forte. Já era, o Fla?... Ou viraria o demo o Mengo, um demo crasso?... A final: quarta à noite. Não sei se ouvi, sei o que leio... No Fla, o “ténico” (a fala do meu pai...) Fleitas Solich, bruxo paraguaio autêntico, diz a Dida: "tu vás a jugar mañana". No gol, Chamorro ladrando a bola. Repete a defesa à direita, o cangaceiro Tomires e Pavão, espécie de lotação, sem pena. Entra Servílio, pra garantir pelo alto, e continua Jordan, no lado sinistro. A ponta extremada de Joel pra lá, a formiguinha recuada de Zagalo pra cá. Dequinha e Duca costurando pelo meio, o pivô Evaristo no miolo. E, então, à frente, Dida, de dez. No América, dez é Alarcón, que azucrina. Só que Tomires, aos dezoito, indo com fome na bola – havia, no Flamengo, um pacto? – atomiza o tornozelo dele. Mário Vianna apita a falta: mas, que adianta pro América?... Inferno é onde o diabo cai: manquitola Alarcón, sai de campo aos trinta e poucos. É 4 x 1 no final. O Maracanã, cruel, ulula... Outra virada! No futebol até Deus se aparvalha. Dado o dado, Dida vira o dito o cujo, do qual se ditam, por décadas, dicas? Deu o quê?... Que quê baixou no baixinho das Alagoas?... Dida, mal sabendo de si, se desembesta, o súbito. Dos gols, três dele. O outro quase, contra. E pronto: cai de quatro o América. Rubro de raiva, o Mequinha ainda viceja. Pacto, se se preza, transpassa. Na noite, caminhos abertos, uniformes suados de bandeiras da vitória, a cambada do Fla (bem quista, diga-se) ruma a Botafogo. Perdem uns a cabeça, pulam do cemitério (São João Batista acata) o muro, jogadores deixam no túmulo do antecipado morto, presidente de coração fanático, arre!, as faixas de tri-campeão. O coração é vermelho, o mundo não... Não pára de cambiar de cor, nem quando o sol se põe, um vermelhão... Rosa também, pintando o branco das nuvens. Negro, o que do outro lado se levanta. Daí, nuances, misturas, viradas... Decisão, pro mundo, pros tempos, é que: ser tão, tão vasto, é bom! (Ah, quê? Por que conto assim, por quê?... Homenagem a troar na cachola: o pai, o Guima e o espírito Mengo!... Essas coisas... Bizarrias.) Manhãzinha, a cidade boba, dia doradim, Rio esbaldado, entendo melhor as viradas novas, até aprendo... Meu pai? Viajou, acho... Demorô... Eu queria saber: se o América é diabo, Flamengo é deus?... Lhe confesso, pergunto agora. Quando, então, não sabia. Foi decepção, nomeio assim?... Sei que: aos cinco anos, não se tem fé. Eu teria que ter?... Meu pai quieto. Lembro que falei “Flamengo ganha...”. Cuidadoso, desenterrei do peito o escudim. Vermelho, devolvi. Não esqueceu, jamais, sempre dizia até se ir... Eu, se tanto mudei, por certo, também não esqueci: sigo flamengo. No final, bem dissera o... , ele: “Existe é homem humano. Travessia.”
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