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Em destaque: Concurso Literário

   

MPB, um enfoque literário

 

            Nos primeiros anos do século passado, pontificava como poeta popular, no Rio de Janeiro, Catulo da Paixão Cearense. Modinheiro e versejador de cultura acima da média, valia-se de modinhas em voga na cidade – o Direito Autoral ainda estava longe – para levar os seus versos. Parceiros ilustres, entre os quais Anacleto de Medeiros, famoso maestro da Banda do Corpo de Bombeiros, musicavam trechos de textos de Catulo repletos de palavras difíceis e rebuscadas, cantadas depois sem que, provavelmente, sequer fossem compreendidos. Mais tarde, Vicente Celestino, Francisco Alves e Paulo Tapajós (bem mais) gravaram algumas daquelas canções que, entretanto, caíram no esquecimento.

            Depois vieram Noel Rosa e Orestes Barbosa, o primeiro com as melodias dele próprio ou de Vadico e o segundo com versos musicados por Silvio Caldas e Francisco Alves, principalmente. Foi a renovação. As imagens e as palavras, todas impecáveis, passaram a ser de fácil entendimento e suas mensagens ficaram. Tanto assim que inúmeras dessas composições surgem, vez por outra, nos repertórios de novos intérpretes, sem falar nas rodas de seresteiros que não as deixam morrer.

            Do mesmo modo, também podem ser citados Mário Lago e Mário Rossi, Pedro Caetano e Antônio Maria. Gabus Mendes e Mário Lago, em particular, cometeram a “heresia poética” de fazer letras sem rimas, o que nos leva a Sérgio Bittencourt: “Ninguém é poeta por saber rimar”.

            Aí chegaram Chico Buarque e Aldir Blanc, Caetano e Paulo César Pinheiro, Sidney Miller e Ivor Lancelloti, César Costa Filho e Luís Antônio, que com suas melodias ou de parceiros, trouxeram um verso novo com imagens ricas e sofisticadas, mas sem rebuscamentos. Nesse ponto, destaca-se a figura do poeta – ou “poetinha” – Vinícius de Moraes. A poesia de Vinícius nos veio pela mão de Toquinho, Carlos Lyra, Baden, Tom e por algumas parcerias ocasionais, embora ele próprio também tenha feito algumas melodias.

            É da sua poesia, chegada por intermédio da música, que nos vai falar, em redondilhas, o também poeta Sandro Rebel. (Lauro Gomes de Araújo).

 

Vinícius de Moraes

 

Talvez por certa ironia,

seu nome é todo plural;

se não fosse ele seria

o Vinício de Moral.

 

Mas pregar moralidade

não era o seu forte não;

foi o amor, na realidade,

sua grande pregação.

 

Com muito amor fez Apelo,

fez O que tinha de ser,

e, além de amor, pôs desvelo

na Canção do amanhecer.

 

Sem fugir todo do tema,

fez tornar-se universal

a Garota de Ipanema,           

como um hino nacional.

 

Fez também Consolação,

Canção pra ninar meu bem,

As razões do coração

e a linda Triste de quem.

  

 

Fez, mais, Chega de saudade,

Samba da benção, Formosa,

Valsinha, A felicidade,

Berimbau, Samba da rosa.

 

Sem pensar que São demais

os perigos desta vida,

deu, em Brigas nunca mais,

a todo amor mais guarida.

 

Tal qual em Sem mais adeus,

Quando tu passas por mim,

Pela luz dos olhos teus,

Se você disser que sim.

 

Canção para o grande amor

e Canção do amor demais:

obras tais, de tal valor,

não se perderão jamais.

 

Sempre assim enamorado,

fez Eu sei que vou te amar,

onde todo apaixonado

vai decerto se encontrar.

 

Fez versos pra muitos “santos”,

Ossanha, Oxum e Xangô,

e num dos seus tantos cantos

exaltou  Tatamirô.

 

E é claro, evidentemente,

nesse rol também está,

com muito fervor, presente

o seu preito à Iemanjá.

 

Quando foi falar da  tonga

mais se complicou porque

fez ela ser da mironga

de um tal de kabuletê.

 

Dentro dessa mesma linha

compôs Meu pai Oxalá;

mas, já noutra, fez Modinha,

Insensatez e Sei lá.

 

Gente humilde (que lindeza!),

Arrastão, Rancho das flores,

também Bom dia tristeza,

onde o amor se esvai em dores.

 

Fez, como sempre, o melhor,

ao fazer, em tom de prece,

Canção em modo menor,

e, em de amor, Samba de Gesse.

 

E fez O velho e a flor,

O astronauta, Bocochê,

Gilda, Deve ser amor,

Tomara e Sabe você.

 

Para A rosa de Hiroshima

fez poema sem revolta,

e pra alguém, com muita estima,

o lindo Samba da volta.

 

Fez O morro não tem vez,

Menina de duas tranças,

Amei tanto, Regra três

e até canções pra crianças.

 

Com A casa entre estas,

e outras como A corujinha,

fez uma arca de festas,

que somente sonhos tinha.

 

Nessa arca entrou O gato,

A pulga, A foca e O leão,

todos curtindo o barato

de ser tema de canção.

 

Quanto é bela Primavera!

Samba em prelúdio também!

Se igual beleza se espera

se a tem na Canção pra alguém.

 

Tal como Água de beber,

e Deixa, e O tempo da flor,   

O filho que eu quero ter,

Pra viver um grande amor.  

 

E, mais, Tarde em Itapuã,     

a Serenata do adeus,

e a mensagem pro amanhã

que existe em Amigos meus.

 

Samba de Orly, Testamento,

Tem dó, Onde anda você...

Em  todas o encantamento

da sua arte é o que se vê.

 

Pôs poesia pura, inteira,

com rimas bem trabalhadas,

da forma, pois, costumeira,

no Rancho das Namoradas.

 

Como em Rosa desfolhada   

ou em Fogo sobre terra

e  na Minha namorada   

ou em No colo da serra.

 

E em meio à tanta poesia,

concluo que não existe

nenhuma, com melodia,

mais triste que Canto triste.

 

Exibiu o seu talento

no enleio de Menininha

e na angústia de Lamento,

com que letrou Pixinguinha.

 

Como em Cala amor, com Tom,

Menina-flor, com Toquinho,

com Nazareh, Odeon,

um delicioso chorinho.

 

Atirou certo, na mira,

ao dar seus versos ainda

pro parceiro Carlos Lyra

usar em Coisa mais linda.

 

Com o mesmo Carlos fez,

pr’uma certa quarta-feira,

a de cinzas, sem talvez,

marcha-rancho de primeira.

 

Também com ele fez par,

e no humor se intromete,

quando pôs-se a versejar

pro Comedor de gilete.

 

Aliás, com Chico, Toquinho,

Baden, Lyra, Edu e Tom,

seu canto assim, ou sozinho,

foi sempre pra lá de bom!

 

Ah, “poetinha”, com certeza,

Se todos fossem iguais

a você, quanta beleza

o mundo teria mais!

 

As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 83 (oitenta e três) composições de Vinícius. 

(Sandro Rebel)

        

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