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MPB, um enfoque literário Para nós que vimos a explosão da Bossa Nova, o enorme e indiscutível talento de Tom Jobim é bastante familiar. Essa familiaridade e mais o fato de que Garoto e Valzinho, por exemplo, já faziam acrobacias e malabarismos harmônicos muito tempo antes, faz com que relutemos um pouco em associar o nome do maestro ao movimento didaticamente ocorrido em 1958. Preferimos considerá-lo bem acima: um dos grandes nomes da história da música popular brasileira, independentemente de rótulos. Para o compositor Roberto Martins – autor obrigatório para quem queira estudá-la – há um importante aspecto pouco conhecido ou notado pelo grande público: o enorme talento de Tom como arranjador. Compositores de outra geração, como Roberto e Ari Barroso, aplaudiam o valor de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o pianista das boates e dos bares legendários, palcos de uma boemia cantada na história da cidade nos anos 1950 e 60. Autor inspirado, sozinho ou com parceiros, alcançou fama internacional com algumas composições que viajam pelo mundo. Tom nasceu em plena época das grandes transformações tecnológicas da comunicação: a chegada do cinema sonoro, o surgimento do rádio e da gravação elétrica. O ano era 1927. Quatro anos depois, mudou-se da Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, para Ipanema, cuja garota seria musicalmente cantada muito tempo depois. Em 1941, vamos encontrá-lo estudando piano com Hans Joachim Koellreutter. Em 1946, depois de abandonar o curso de Arquitetura, pôs-se a tocar piano nas boates e bares que proliferaram depois do fechamento dos cassinos. Em 1952, passou a trabalhar como arranjador na gravadora Continental, chegando ao sucesso com “Tereza da Praia”, parceria com Billy Blanco. Em 1956, veio o conhecimento com Vinícius de Moraes, o “Orfeu da Conceição” e a arrancada para uma carreira de sucessos no Brasil e no exterior. No ano de 1984, apresentou-se em Viena e deu início a uma série de shows nos Estados Unidos, Japão e em vários países da Europa. Sobre o repertório de Tom, dirá Sandro Rebel. (Lauro Gomes de Araújo).
Tom Jobim Não somente para mim, mas no consenso mundial, Antônio Carlos Jobim é um artista genial.
Seu trabalho popular tem um jeito de erudito e mostra um brilho invulgar, muito pra lá de bonito.
Inventivo a toda prova no trato das melodias, até fez a bossa nova se prestar a sinfonias.
Dentre as suas criações de genialidade extrema, merece só louvações a Garota de Ipanema.
Assim como a Sabiá, que, de forma emocionante, diz da saudade que dá num brasileiro distante.
De fato, seu canto encanta, porque o belo prioriza, inclusive quando canta mulheres, como em Luíza.
Só o belo também tem vez quando faz Desafinado, Promessas, Insensatez, Discussão e Corcovado.
Ou quando exalta Gabriela, através de uma canção que foi tema de novela e passa pura paixão.
Com talento igual se esmera ao compor Meditação, Derradeira primavera, Triste e o Samba do avião.
Assim como quando faz Wave, Matita Perê, Foi a noite, Amor em paz e Por causa de você.
Ou, ainda, Olha Maria, Bonita, Estamos aí, Solidão, Fotografia, e a nostálgica Dindi.
E Canção do amor demais, Frevo, Caminhos cruzados, Lígia, Brigas nunca mais, Modinha e Anos dourados.
Pois é, Janelas abertas, Sei lá, Esse teu olhar, Passarim, Praias desertas, mais Eu sei que vou te amar.
E Por toda a minha vida, Pela luz dos olhos teus, Eu te amo, Frase perdida, e Se é por falta de adeus.
E mais Faz uma semana, Brigas, Eu e o meu amor, Teu castigo, Luciana, Zona sul e Arpoador.
Buscando sempre o melhor fez mais Chora coração, Canção em modo menor e O trabalho e a construção.
Também Carinhos sem fim, e Domingo sincopado; Você vai ver, Borzeguim e Vem viver ao meu lado.
Fez Domingo azul do mar, Bolero, Só em teus braços, Caribe, Tempo do mar e Milagres e palhaços.
E fez Canta, canta mais, O homem, Pensando na vida, Nuvens douradas. Demais, Choro e Esperança perdida.
Para Chico musicou o Retrato em branco e preto, e ao fazê-lo lhe emprestou a pureza de um soneto.
Ainda exibe o seu valor em Outra vez, Incerteza, Mágoa, Falando de amor, Cai a tarde e Correnteza.
Mostra a mesma qualidade, até de maneira enfática, pondo mais criatividade em Aula de Matemática.
E em O que tinha de ser, como em Estrada do sol ou em Água de beber, só composições de escol.
Mais rica faz sua obra de astro da MPB, ao pôr arte até de sobra em Ângela e Sem você.
E assim sempre espalhando inspiração a granel, fez também Vivo sonhando, Estrada branca e Bebel.
Mais qualidade nos traz quando de gênero troca e com balanceio faz o samba Ela é carioca.
Fez O que vai ser de mim, Descendo o morro, Oficina, A montanha, Acho que sim, Ah, quem me dera e Imagina.
E fez A felicidade, Águas de março, Lamento, e, mais, Chega de saudade, um misto de dor e alento.
Fez Chovendo na roseira, Pelos caminhos da vida, Olha pro céu, A violeira, Garoto, Engano e Querida.
Criou a mulher à qual se todos fossem iguais, viver seria um rosal feito de sonhos reais.
Brasileiro até no nome, salve o nosso Tom Jobim, a cujo justo renome nem mesmo a morte deu fim.
Seu trabalho musical ganhou tamanho respeito que, por ser tão magistral, chega a ser quase perfeito.
Se, aliás, só passa perto e não chega à perfeição, é porque esta, decerto, não existe mesmo não.
As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 108 (cento e oito) composições de Tom Jobim.
(Sandro Rebel) Para voltar ao índice, clique em Revista virtual.
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