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Em destaque: Concurso Literário

   

Caymmi das praieiras e de outras pérolas

 

Lauro Gomes

 

            Lembro-me de certa vez em que fui à Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (SBACEM), na Cinelândia, encontrar-me com o compositor Raul Sampaio. Enquanto conversávamos sobre determinada música de sua autoria, e da qual me trazia a gravação, chegou até nós a figura plácida e baianamente simpática do grande Dorival Caymmi. Fomos apresentados e quando lhe contei ser amigo do pesquisador Jairo Severiano, a cargo de quem esteve a produção de um livro bilíngüe acompanhado de um álbum duplo sobre sua obra, tudo acondicionado em luxuosa caixa, o sorriso de Caymmi abriu-se como em tantas fotos vistas pelo público: “O Jairo conhece a minha vida melhor do que eu...”. A frase veio com a simplicidade dos que já chegaram lá, do fundador, sem fanfarras, de uma dinastia que continua conduzindo a chama da nossa música popular por três caminhos: Nana, Danilo e Dori. Saímos da SBACEM e, já na frente do bar Amarelinho, de onde vieram Moreira da Silva e Zé Kéti, fomos imediatamente cercados por um grupo numeroso de pessoas pedindo autógrafos de Caymmi. Mais felizes ficaram quando perceberam a rara oportunidade de obterem assinaturas de três dos maiores nomes do nosso cancioneiro popular.

O cantor José Tobias, amigo e admirador incondicional do bom baiano, relembra-o na janela de um determinado hotel em Recife, contando de onde tinha chegado a inspiração para o nascimento de Dora.

            As famosas canções praieiras garantiram a Caymmi não apenas decisiva contribuição para o sucesso, mas a primazia de um gênero que não teria seguidores. Depois de cantar nas rádios de sua terra, resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Por intermédio do meu particular amigo e saudoso compositor Newton Deusa da minha rua Teixeira, gravou na Odeon o seu primeiro disco em 1939. Cinema e rádio vieram mais tarde, consagrando o talento do cantor e compositor de voz grave e original, presente também na famosa peça de Henrique Pongetti “Joujoux e balangandãs”, escrita para fins benemerentes de D. Darci Vargas. Excursões inúmeras ao exterior, sucesso internacional como, por exemplo, Das rosas, gravada pelo cantor Andy Williams, com versos em inglês de Ray Gilbert, condecorações muitas e consagração popular vêm marcando as mais de nove décadas da vida de Dorival Caymmi. Cantor maior das coisas de sua terra, bardo moreno da Mãe Menininha do Gantois e da Jangada que voltou só, das históricas apresentações com Carmem Miranda e dos filmes de Downey, Caymmi é orgulho nacional.

            Como sempre, neste ponto, deixo a palavra com Sandro Rebel, cujos versos dirão mais sobre Caymmi.

 

Dorival Caymmi

Há coisa mais brasileira,

com mais cara de Bahia,

que uma cantiga praieira,

de dolente melodia?

 

Pois é isto aí Caymmi:

um baiano nota mil,

e cuja música exprime

sempre a marca do Brasil.

 

Foi de sua inspiração

que nasceu O bem do mar,

qual foi sua criação

Eu não tenho onde morar.

 

Cantando assim sua gente,

tal qual sua terra e O mar,

sucessos, seguidamente,

muitos soube acumular.

 

Compôs Lá vem a baiana,

A jangada voltou só,

Horas, Vou ver Juliana,

Balaio grande e Tão só.

 

Fez Adeus, São Salvador,

                     Você já foi à Bahia

Promessa de pescador,

Vatapá e Pescaria.

 

E A lenda do Abaeté,

O que é que a baiana tem?

A preta do acarajé

e O dengo que a nega tem.

 

Fez A vizinha do lado,

que em si brejeirice encerra,

e o som bem repinicado

de O samba da minha terra.

 

Requebre que eu dou um doce,

Francisca Santos das Flores,

tão pura quanto se fosse

História de Pescadores.

 

E pureza igual ainda

conseguiu fazer passar

na saga triste, mas linda,

de É doce morrer no mar.

 

Fez poesia com meiguice

quando fez Canção antiga,

Acalanto, Doralice,

Maricotinha e Cantiga.

 

E com O vento, Teresa

e a Modinha de Gabriela

deixou claro que a beleza

não perde por ser singela.

 

Mas quando fez a canção

pra exaltar Mãe Menininha,

aí fez uma oração,

com jeito de ladainha.

 

E quando diz que Acontece

que eu  sou baiano, ele o diz

de uma forma que enternece,

pois se mostra um ser feliz.

 

Já provando que no samba,

e até no samba-canção,

soube igualmente ser bamba,

fez o Não tem solução.

 

Como fez Nem eu, Só louco

e Você não sabe amar,

onde exibiu mais um pouco

do seu talento invulgar.

 

                    Sábado em Copacabana

revela talento igual,

traçando um fim de semana

com um programa ideal.

 

Também nessa mesma linha,

fez a clássica Marina,

e já por outra se alinha

em A mãe-dágua e a menina.

 

Mas no samba aqui não posso

deixar de fazer menção

ao retrato muito nosso

posto em João Valentão.

 

Já que o bom não é demais,

outras jóias melodiosas

produziu com Nunca mais,

Maracangalha e Das rosas.

 

Beijos pela noite fez,

e com parceiro afamado,

grande escritor, sem talvez,

seu amigo Jorge Amado.

 

De mais três me lembro agora:

Quem vem pra beira do mar,

Morena do mar e Dora.

São tantas, melhor parar!

 

Do grande compositor,

devo, ao fim, dizer aqui

que ainda fez, com muito amor,

Danilo, Nana e Dori.

  

E que agora e no porvir

todo o Brasil se engalana

para, contrito, aplaudir

a obra caymminiana.

 

As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, títulos de composições de Dorival Caymmi.

 

(Sandro Rebel)

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