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MPB, um enfoque literário

 

A lírica de Chico

 

Lauro Gomes de Araújo

 

            Nós que vimos o despontar do seu sucesso, sabemos da importância da sua obra e do lugar que merecidamente ocupa em nosso mais genuíno cancioneiro. Mestre da metáfora, artífice inspirado da imagem poética, Chico Buarque tem bagagem caleidoscópica. Claramente influenciado, na sua primeira fase, pelos grandes sambistas como Noel Rosa e Ismael Silva, chegou ao cenário musical com marca nítida de alto nível sem deixar de ser popular, mas não popularesco. Os primeiros sambas trazem poemas simples e fáceis na forma, mas profundos na inteligência e na mensagem. Depois, foi a fase mais madura e as canções já trazem características rebuscadas, mais trabalhadas, mantendo o alto padrão da boa música popular brasileira a que pertence. Vieram os festivais, o teatro e parcerias ilustres que marcaram época, mostrando um compositor que surpreendia a cada surto criativo. É verdade que o meio em que nasceu e cresceu pode ter contribuído para emular um talento musical que cedo se manifestou. Filho de Sérgio Buarque, cujo nome e lugar na intelectualidade brasileira dispensam maiores comentários, conviveu com Vinícius de Moraes, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga, além de outros, ainda que eventualmente. Essa convivência, sem dúvida, encontrou terreno fértil no jovem artista, embora algumas das suas composições não alcançassem um grande público. Certas nuances de suas letras deixam ver preciosismos poéticos assemelhados às realizações dos grandes cineastas, que inserem alguns detalhes em seus filmes sabendo que a maior parte do público não os perceberá (vide filmes de Chaplin, Buñuel, Eisenstein, entre outros). É o requinte do talento criativo oculto em cenas rapidíssimas ou em detalhes fortuitos.

            Assim, os Sabiás, as Bandas e a delicadeza de Januárias farão sempre Bom tempo e jamais serão engolfados pela Roda viva da mediocridade de manifestações subalternas e que deveriam ficar, na verdade, Atrás da porta. Tem sido uma bela Construção de uma carreira de sucessos com Todo sentimento. Mas, Trocando em miúdos, melhor dirá, Com açúcar, com afeto, o nosso poeta Sandro Rebel.

Chico Buarque

 

Pobre que aparente ser,

É, de fato, um país rico,

o nosso, pois pode ter,

a seu serviço, esse Chico.

                                                                                      

Com A banda, quem diria,

teve início a Construção

de uma Vida que seria

Roda viva de emoção.

 

Outros sucessos vieram,

como a linda Sabiá;

muito aplauso depois deram

em louvor de Olê, olá.

 

 

Antes, em Pedro Pedreiro,

mostrara a perseverança

de um tipo bem brasileiro,

operário da esperança.

 

Sua música bonita

desnuda a alma feminina,

como quando compõe Rita,

Teresinha e Carolina.

 

Ou quando canta Joana,

Januária, Madalena

e Geni, figura humana

que não presta mas dá pena.

 

Com o poeta João Cabral,

seu talento criador

fez tornar-se musical

Funeral de um lavrador.

 

Entre sambas de primeira,

como Morena de Angola,

fez Estação derradeira,

pra Mangueira, sua escola.

 

Fez o Tango do covil,

Biscate, O velho, Beatriz,

Pivete e Bye bye Brasil,

uma foto do país.

 

Bom tempo, Samba de Orly,

tudo música maior,

Gente humilde, O meu guri...

Não há melhor nem pior!

 

Fez Sonho de um carnaval,

Almanaque e Bastidores,

um grito Sentimental,

feito só de desamores.

 

Em Folhetim fez mensagem

de uma dama de programa,

assim como, em Tatuagem,

o exorcismo de quem ama.

 

Já com Todo  sentimento

pôs lirismo na Valsinha

e, a fugir do Desalento,

enterneceu-se em Maninha.

 

Por um Cálice sorver

nos tempos da ditadura,

sua lira de lazer

transformou-se em de amargura.

 

Seguindo essa mesma linha,

de protesto e oposição,

sua revolta sublinha

no Hino da repressão.

 

E, se fez Sem fantasia,

da Fantasia abusou

quando a João e a Maria

bela canção dedicou.

 

E dos carnavais passados

quantas saudades nos trouxe:

fez Noite dos mascarados,

e todo mundo encantou-se.

 

Mas espantou-se também

ao ver, no seu Vai passar,

quanto o Brasil teve e tem

de hospícios para cuidar.

 

Também para os tempos idos,

que são sempre os mais amados,

fez os versos convertidos

no bolero Anos dourados.

 

Fez Apesar de você,

Suburbano coração

e Quem te viu, quem te vê,

Até pensei, Meu refrão.

 

E De todas as maneiras,

Amando sobre os jornais,

obras primas verdadeiras,

como tantas outras mais.

 

É o caso de Atrás da porta,

e de Pedaço de mim,

que tantas dores comporta,

do princípio e Até o fim.

 

E de outras de igual valor,

como Piano na Mangueira,

o Samba do grande amor,

Salmo e Até segunda-feira.

 

Com açúcar e com afeto,

e, com a arte de um Soneto

de contexto o mais correto,

fez Retrato em branco e preto.

 

Indo adiante nesta lista

me lembro de Sob medida,

que, tal qual Tempo e artista,

não pode ser omitida.

 

Meu caro amigo igualmente

há de ter aqui menção,

como a Moça diferente,

Baioque e A televisão.

 

Já no seu disco, um CD,

denominado “As cidades”,

como sempre, só se vê

desfilarem qualidades.

 

Lá estão Assentamento,

Xote de navegação

Injuriado, A ostra e o vento

e, mais, Sonhos sonhos são.

 

E num outro, o “Carioca”,

o último que gravou,

somente aplausos provoca,

pois mais bons cantos lançou.

 

Do que foi acima dito

cabe agora a conclusão:

Chico Buarque é um bendito

produto desta nação.

 

Já que além do musicista

que tantas obras lançou,

igualmente foi artista

nos livros que publicou.

 

Que Deus lhe pague, portanto,

pelo labor que exibiu,

pela força e pelo encanto

de tudo que produziu.

 

As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente,

ou sugerem, títulos de composições de Chico Buarque.

(Sandro Rebel)

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