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MPB, um enfoque literário

Lauro Gomes de Araújo

  

Antônio que não era do Antonio`s

 

            ...mas que era do Wonder Bar, do Alcazar, do Alpino do Leme, do Vilariño, do Vogue, do Casablanca, de tantos mais naqueles dias longínquos do Rio de Janeiro dos anos 50. Em “Oração para Antônio Maria – pecador e mártir”, diz Vinicius: “Acho que iria gostar do Antonio’s, um restaurante novo do Leblon...” O poeta, compositor e jornalista partiu em 1964, antes do brilho das rodas boêmias do Antonio’s, que teve início em fins da década de 60. Provavelmente teria sido um dos focos daqueles intelectuais boêmios que se reuniam na casa que ostentava o seu nome (embora com o s apostrofado sofisticando o final) representados por Carlinhos de Oliveira, Roniquito e Paulo Mendes Campos, Vinicius e Antonio Callado, Tom e Otto Lara Resende. Foram os sucessores da antiga confraria da Colombo e seus nomes ilustres: Emilio e Paula Nei, Bilac e Luís Edmundo além de vários outros. Poucos tão cariocas quanto ele, Antônio Maria, apesar de pernambucano, que assina com um paraense, Ismael Neto, um dos hinos do Rio perdido nas lembranças: “Valsa de uma cidade”. Maria era, também, homem de rádio e de televisão, tendo sido o primeiro diretor de produção da pioneira TV Tupi, de injusta e apagada memória.

Na Rádio Mayrink Veiga, outra clamorosa injustiça perpetrada pela "redentora", que cuidou com afinco de destruir seus arquivos, ganhava o mais alto salário do Rádio até então. Autor de vários jingles em parceria com Geraldo Mendonça, alcançou enorme sucesso com os programas "Alegria da Rua", "Regra de três" e "Musical Antártica". Fosse com a coluna "Jornal de Antônio Maria", como locutor esportivo, cujo estilo revolucionou, ou lançando cantoras, entre as quais Dolores Duran, ou produzindo textos para a televisão, a exuberância do seu talento era uma marca. Como compositor teve parceiros da qualidade de Vinicius e Fernando Lobo, Evaldo Gouveia e Pernambuco, João Roberto Kelly e Moacir Silva, Paulo Soledade e Luís Bonfá. Em todos os gêneros pelos quais viajou, sambas-canções, valsas, maxixes, toadas, frevos dobrados, o autodidatismo e a inspiração intuitiva estavam presentes, já que não tinha formação musical e era técnico agrícola por profissão. Foi-se o “menino-grande” aos 43 anos. Na abertura da “Oração para Antônio Maria”, que lhe dedicou, Vinicius relembra o poeta e grande amigo: “Nós saíamos os dois do Vogue e depois de deixar Aracy no táxi que a levaria ao seu subúrbio, seguíamos de carro até o Leblon, às vezes acompanhando a matilha madrugadora dos vira-latas. Nunca vi raça de bicho mais contente que vira-lata carioca ao nascer do sol”.

            Recentemente, o poeta e ator Marcos França produziu e apresentou com elenco o espetáculo “A noite é uma criança”, focalizando magistralmente a vida e a obra do definitivo Antônio Maria, tão bem relembrada a seguir por Sandro Rebel.

Antônio Maria

Querer bem era a canção.

Autor: Antônio Maria.

Uma antiga gravação:

a carreira se inicia.

 

Um tipo bem brasileiro,

recifense de nascença,

foi no Rio de Janeiro

que ele teve mais presença.

 

Homem da noite, o Maria

exaltou-lhe as tentações

e pôs arte na boemia

com suas composições.

 

Mas, nem só de musicista

seu talento reluziu,

pois também como cronista,

com fartura, o exibiu.

 

Aliás, como cronista,

fez bastante conhecida

a série “Mesa de Pista”,

de historietas da vida.

 

De locutor esportivo,

de não menor qualidade,

igualmente esteve ativo

servindo à comunidade.

 

Foi na música, porém,

que, sem favor, mais brilhou,

se afirmando como alguém

que o sucesso conquistou.

 

Seu sucesso até se deu

no plano internacional:

tal, de fato, aconteceu

com Manhã de carnaval.

 

E em Seu eu morresse amanhã,

com extrema nostalgia,

fala de uma vida vã

que a ninguém falta faria.

 

Mas seu canto tem também

um quê de felicidade

com a poesia que vem

da Valsa de uma cidade.

 

Fez, ainda, Sei perder,

Carioca, Parceria,

Quando a noite me entender

e, mais, Disse o que eu queria.

 

Escravo do sofrimento,

cai no fundo dos desvãos

de um amor em desalento,

quando compõe Suas mãos.

 

Onde anda você também

é outra canção de dor

onde alguém, sem ter ninguém,

quer achar o seu amor.

 

A tristeza do seu canto

se torna ainda mais triste

no nostálgico acalanto

que em Canção da volta existe.

 

Não há mais sofrido amor

do que aquele que é desfeito

e que se transforma em dor

por causa de um Preconceito.

 

Igual a esse só mesmo

o que, nascido de um drama,

faz alguém viver a esmo,

a clamar Ninguém me ama.

 

Seu romantismo sem par

se reafirma e mais se expande

na oração para ninar

que pôs em Menino grande.

 

O amor e a rosa, gravada

Por Elisete Cardoso,

é canção elaborada

sobre um tom bem mavioso.

 

Já mostrando ter cacife

pra de outros temas tratar,

fez em Frevos pra Recife

a alegria transbordar.

 

Quando tu passas por mim,

com Vinícius de Moraes,

é obra de mestre, sim,

como tantas outras mais.

 

Louvando Os olhos da amada

fez canção enternecida,

como fez em Madrugada,

para outra musa querida.

 

Fez também Fique comigo

Pense em mim, Samba de Orfeu,

Vem hoje, Portão antigo

e O amor que Deus nos deu.

 

E fez Quando ela se for,

Insensato coração,

Dez noites, Coisas do amor,

Ah, que medo! e Hoje não.

 

E Domingo fez também

tal como, entre outros cantos,

Aconteceu, Gostas de alguém,

Não fiz nada e Os teus encantos.

 

E mais outros, lembro agora,

merecem aqui menção:

são Cartas, Não vá embora,

Dorme e Bate coração.

 

Numa abordagem geral,

eis aqui rememorado

um trabalho musical

que há de ser sempre louvado.

 

Se, em quantidade, tal obra

aqui não foi expressiva,

teve riqueza de sobra,

na visão qualitativa.

 

E ante, pois, essa visão,

de um enfoque cultural,

foi que ganhou projeção

no cenário nacional.

As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 41 (quarenta e uma) composições de Antônio Maria

(Sandro Rebel)

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