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MPB, um enfoque literário

Lauro Gomes de Araújo

 

Um Caetano velejando na música popular

 

Dois dos melhores programas da televisão brasileira, que vai pouco a pouco se imbecilizando, eram comandados pelo saudoso Blota Jr. Um deles, do qual não me recordo o nome, homenageava, semanalmente, quatro convidados. Ao fim das entrevistas, todos recebiam uma rosa de prata. Entrevistas inteligentes, sem afetações e sem gracinhas com coral de gargalhadas de claque eram transmitidas pela antiga TV Rio. O outro era gerado pela TV Record e chamava-se "Esta noite se improvisa". Vários compositores e/ou intérpretes - cinco ou seis - sentados no palco, de frente para o auditório, esperavam que Blota anunciasse determinada palavra. O primeiro a apertar um botão ao lado da cadeira ia ao microfone para cantar uma música cuja letra contivesse a palavra sorteada. Três artistas sagraram-se campeões daqueles torneios bastante ilustrativos para a Música Popular: Wilson Simonal, Chico Buarque e um rapaz tímido, magrinho, surgido há pouco no cenário musical brasileiro: Caetano Veloso.

Caetano Emanuel Viana Teles Veloso nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA) em agosto de 1942 e o pendor para a música cedo se manifestou. Durante curto período (1956), morou na cidade do Rio de Janeiro, em Guadalupe, época em que ainda pôde freqüentar alguns programas da Rádio Nacional. Em 1960, vamos encontrá-lo escrevendo crítica de cinema no Diário de Notícias e, em 1963, cursando filosofia na Universidade da Bahia. Já fazendo parte do grupo com a irmã Bethânia, Gil e Tom Zé começou intensa atividade no Rio de Janeiro: estava aberto o caminho para o movimento inspirado pela Bossa Nova e os Beatles: o Tropicalismo. ("A gente não queria ficar fazendo sub-Bossa Nova depois do João e do Tom"), para os Festivais da Canção, para a Bienal do Samba, para o lançamento de vários LPs significativos, para a prisão e exílio no tempo da “Redentora”, para apresentações vitoriosas na Europa, que pontilharam uma carreira de sucesso com passagens pela música de cinema, shows, peças teatrais e vários prêmios, incluindo Grammy e Discos de Ouro, somando-se, também, as atividades de pintor e escritor. Tudo isso tem garantido inegável lugar de destaque a um compositor que, sem dúvida, influenciou uma geração.

Seria enfadonho e fora do objetivo desta página relacionar os êxitos na carreira de Caetano. Há, contudo, uma faceta que mostra um Caetano diferente daquele que a mídia, por vezes, equivoca-se ao exibi-lo como espécie de oráculo, coisa que a sua natural simplicidade repele. Em Salvador, por vezes, reúne os amigos para que todos cantem numa daquelas "Tardes de Itapoã", mas pede, modesto: "Não vale música minha".

Mas aqui, vale, e é isso o que fará agora Sandro Rebel.

 

Caetano Emanuel

Viana Teles Veloso,

com dons de artista a granel,

tornou-se um nome famoso.

 

 Porquanto este Caetano

é o do nosso cancioneiro,

que levou pr’um alto plano

o canto do brasileiro.

 

 Pois, além de em português,

o exibiu em italiano

e gravou até CDs

em inglês e em castelhano.

 

 Afora isso. não ficou

sendo apenas o cantor;

com engenho, trabalhou

também de compositor.

 

Aliás, nesse labor,

fez com que suas canções

lograssem sempre se impor,

à margem de concessões.

 

São canções de alto jaez

pois feitas num linguajar

que se expressa em português

mais culto que popular.

 

 Em algumas, na verdade,

pôs, em sua construção,

certa complexidade,

com eivas de erudição.

 

Já politicamente,

foi expressiva figura,

quando opôs-se firmemente

aos donos da ditadura.

 

 Com Alegria, alegria,

num festival rebrilhando,

desde então, dia após dia.

vem mais sucessos granjeando.

 

E mais os granjeou porque

criou o Tropicalismo,

e, assim, na MPB

deu um choque de “novismo”.

 

 De emoção tanta e tamanha,

da poesia toda haurida,

compôs assim Força estranha,

um belo extrato da vida.

 

 Fez também um outro cântico,

com lances de saudosismo,

chamado Muito romântico,

que é só sentimentalismo.

 

São também da sua lavra

Gema, Linha do equador,

Não enche, Boa palavra,

Mel e Nosso estranho amor.

 

 E Remelexo, O quereres,

Chegar à Bahia, O fundo,

Eu te amo, Podres poderes,

e Coração vagabundo.

 

É proibido proibir,

com o qual ele protesta

contra tudo que existir

só porque ninguém contesta.

 

 Já em Meu bem, meu mal,

ao tratar de um certo amor,

mostra ali o estranho astral

que o faz ser prazer e dor. 

 

Um clássico (há quem duvide?)

da obra desse baiano,

é Sampa, lembrando a lide

na qual vive o paulistano.

 

Fez Leãozinho também,

onde mostra que beleza

casa bem, e muito bem,

com pureza e singeleza.

 

 E Reconvexo, Drama,

Doideca, Cobra coral,

Terra, De noite na cama

e Pecado original.

 

E London, London, O amor,

Irene, Luzes, A rã,

Odara, Nenhuma dor

Esse cara e De manhã.

 

E Matriz, Tempo de estio,

Muito, Sem pisar no chão,

Onde eu nasci passa um rio,

Tá combinado e Sertão.

 

E A grande borboleta,

Menino Deus, Cajuína,

Sol negro, A luz da Tieta

e Cidade pequenina.

 

 E Haiti, Vaca profana,

O ciúme, Vai levando,

Um índio, Superbacana,

Tropicália, Quase e Quando.

 

 E Peter Gast, Tigresa,

Relance, Massa real,

Naquela estação, Surpresa,

Não tenha medo e Final.

 

Neste rol da obra sua

cabe bem entrar ainda

Lua, lua, lua, lua,

tanto qual Você é linda.

 

Igualmente neste rol

de um repertório tão vário

também cabem Luz do sol,

Queda d’água e Escapulário.

 

Como cabe, a esta altura,

vale dizer, no seu fim,

nele eu pôr Beleza pura

e Não se esqueça de mim.

 

Diante de tal repertório,

há que ver-se, sem engano,

até porque é notório:

é mesmo um astro o Caetano.

 

E um astro de fulgurância

das maiores, de primeira,

e da mais alta importância

pra música brasileira.

             As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 73 (setenta e três) composições de Caetano Veloso.

 

(Sandro Rebel)

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