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MPB, um enfoque literário Lauro Gomes de Araújo Foi-se Dolores há meio século
Em 1959 faleceram o maestro e compositor Vila Lobos, o violonista e também compositor Josué de Barros, tão importante para a carreira de Carmem Miranda e, em 24 de outubro, Adileia Silva da Rocha, que a noite carioca conheceria como Dolores Duran. Para Lupicínio Rodrigues, “é na noite que se faz música, que se diz poesia com mais sentimento e onde, enfim, o amor é mais amor”. Pois, foi na noite, na romântica noite do Rio daqueles anos 1950, que floriu Dolores Duran. Floriu para exuberância breve, como certas orquídeas, mas mostrando, na sua curta florescência de músicas e versos, um excepcional talento e uma profunda sensibilidade. Seus versos fluíam nos intervalos das apresentações, na alta madrugada dos tantos bares e boates que a aplaudiam, improvisados em guardanapos de papel, valendo-se de lápis de maquiagem. Muitos, assim nascidos, ficaram no esquecimento, aguardando a hora de serem redescobertos por amigos muitos anos depois, como Ribamar, Marisa Gata Mansa e Carlos Lyra. Numa Copacabana esfuziante, ao longo dos “121 postes de iluminação, formando colar de pérolas”, como queria Antonio Maria, escoavam-se os anos 1940 e 1950, marcados pelas estripulias da “Turma dos Cafajestes" ou dos cajus-amigos do Ibrahim pelas noites do Copa e na espera ansiosa pela publicação das certinhas do Lalau. Havia o perímetro minado, Leme/Lido, como dizia Sérgio Porto, com a Arpege, o Drinks, o famoso Beco das Garrafas e seus minúsculos espaços, além do Bacarat, onde a cantora norte-americana Ella Fityzgerald aplaudiu entusiasmada uma Dolores que interpretava impecavelmente a bela página My funny Valentine. Parando o carro aqui e ali, no percurso entre o Alto da Boa Vista e uma das casas do Beco, surgiu “Solidão”, acometida que fora a compositora por uma súbita canção. Os templos famosos da boemia carioca como o Vogue, Beguine, Montecarlo, Acapulco, Casablanca, Mocambo e O Cangaceiro eram o começo de noite para Dolores. Neles pontificavam Antônio Maria, Lúcio Rangel, Sérgio Porto, Mariozinho de Oliveira e o célebre comandante Edu, construindo todo aquele glamour que uma visão afastada encarregou-se de imortalizar na história do Rio. Recentemente chegou às livrarias o livro de Carlos Lira em que narra encontro com Dolores, pouco antes de sua morte. Lamentava-se a compositora de que nada tivessem composto juntos. Lira mostrou-lhe algumas melodias inéditas, logo seguidas por anotações esparsas de Dolores, mas que por aí ficaram. Somente muitos anos depois, por intermédio de Marisa, responsável pela redescoberta de muitos poemas, Lira pôde musicar um deles, provavelmente daqueles do último encontro. Há 50 anos desaparecia essa que nos deixou para sempre “a rosa mais linda que houver”
Dolores Duran Sandro Rebel Uma estrela tão brilhante que até luziu de manhã: é a vendo assim que, adiante, louvo Dolores Duran.
Porém, seu canto luziu apenas por poucos anos; muito cedo ela partiu para ir brilhar noutros planos.
Em quantidade, pequena, a sua obra, no entanto, só passa beleza plena e inexcedível encanto.
E Se é por falta de adeus, que com mestre Jobim fez, foi, entre os trabalhos seus, com ele, a primeira vez.
Com o mesmo Tom também fez mais músicas de escol, tal como a que se contém na bela Estrada do sol.
E em Por causa de você, que é declaração de amor em cujo teor se vê quanto a falta gera a dor.
Já com Ribamar teceu versejar que abriu espaço pra surgirem Quem sou eu, Pela rua e O que é que eu faço.
Ternura antiga é cantiga onde se abraça à tristeza, a tratando como amiga a quem devesse estar presa.
Em Castigo narra o drama e o desespero de quem briga com alguém que ama só porque orgulho tem.
Noite de paz é expressão de um anseio universal, embora o trate, a canção, como sendo pessoal, . O romantismo é que guia os passos de Solidão, mas de forma tão sombria que até induz depressão
Não parece, pois, acaso, nem surpresa, que haja feito, no mesmo tom, Fim de caso, ante um sonho a ser desfeito.
E em O negócio é amar mostra que, de todo jeito, e em qualquer tempo ou lugar, o amor há que ser aceito.
Canção da tristeza inunda alma e coração da gente de uma languidez profunda, tamanhamente é dolente.
Com não menor sentimento e inspiração modelar, compôs Arrependimento e Se quiseres chorar.
Fez também Sou toda tua, lançada por outra artista de glórias iguais à sua, que foi Dircinha Batista.
Até aqui falei dela só como compositora, mas convém lembrar que ela igualmente foi cantora.
E que como tal mostrou belas interpretações, quer quando atuando em show, quer quando nas gravações.
Entre as tantas melodias às quais seu canto emprestou, me recordo de Manias, que de crendices tratou.
Com sua voz maviosa, tal qual veludo ou cetim, regravou, de Noel Rosa, Conversa de botequim.
E já em Canção da volta, para uma paixão infinda, essa mesma voz se solta, em cadência terna e linda.
Seu talento musical novamente reluziu ao botar Pano legal numa faixa de um vinil.
No geral cantou canções de fossa e de nostalgia, mas algumas, de exceções, passam graça e alegria.
Pois é isto o que se dá, por exemplo, em Escurinho, um bom samba, e no qual há um balanço gostosinho.
De maneira parecida, sem dar vez ao desalento, se põe bem descontraída no baião Na asa do vento.
E de Chico Anísio, um mito do humorismo na nação, A fia de Chico Brito foi de sua criação.
Ao voltar, como voltou, ao velho samba-canção, com sucesso relançou a famosa Conceição.
Falar de canção famosa impõe-me falar também da poesia primorosa que há na A noite do meu bem.
Até porque, na verdade, foi ela, principalmente, que a fez eterna saudade no pensamento da gente.
Só no pensamento não, pois tanto o amor exaltou que também no coração o seu canto em nós ficou.
Há que assim se ver Dolores como uma artista capaz de dissecar os amores em porções de dor e paz.
As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 25 (vinte e cinco) canções compostas e/ou cantadas por Dolores Duran. Para voltar ao índice, clique em Revista virtual.
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