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MPB, um enfoque literário

Lauro Gomes de Araújo

 

Presença de Pixinguinha

 

“No dia em que partiu para compor a grande mesa, emitiu sinais para que eu fosse vê-lo em sua derradeira manhã. Sem mais porque tirou a flauta do estojo e a tocou com os lábios, dedos da alma, a tocou em camadas de silêncio e, em seguida, me abraçou chorando. Depois, entendi o significado real do chamado. Queria despedir-se, sabia que numa igreja, dali a pouco, silenciariam todos os seus gestos.” As palavras são do poeta, compositor e produtor, além de escritor, Hermínio Bello de Carvalho, que o chamava de São Pixinguinha. Dizia assim da pureza do amigo e parceiro. Dizia assim da simplicidade de um dos maiores talentos da Música Popular Brasileira. Compositor, músico, exímio arranjador e orquestrador, antecipou-se à sua época, como acontece aos gênios. Composições suas, da década de 1920, somente bem mais tarde conheceram o sucesso que mereciam. Guardou-as o maestro por sentir e saber que ainda não era seu tempo, muito embora tivesse a convicção de que eram irretocáveis. Depois alguns letristas as tornaram, digamos, “cantáveis”, atingindo assim um maior público, pouco afeito à música instrumental. Não foram somente os poetas de anos recuados, pois seus sucessores, versejadores das novas gerações, continuaram descobrindo nele o talento que as décadas consagraram. O próprio Hermínio e Paulo César Pinheiro são exemplo disso, bordando seus temas, acordes e melodias à altura do mestre.

            Em duas ocasiões pude, por assim dizer, chegar mais perto de Pixinguinha. Em conversa com o saudoso caricaturista e compositor Nássara, disse-me ele que estava procurando um orquestrador para uma de suas marchinhas, às vésperas do carnaval. Procurou alguém na Rádio Nacional, mas todos estavam ocupados e, por instâncias, foi procurar o velho Pixinga em sua casa. Encontrou-o às voltas com dezenas de arranjos que, entretanto, não o impediram de interromper o trabalho para fazer rapidamente o arranjo sob medida para a música do Nássara. Numa entrevista que fiz com o cineasta Alex Viany, contou-me ele que tinha ido à Bahia para as filmagens de “Sal sobre lama”, baseado no tema folclórico de “Água dos meninos”. “Orgulho-me de ter sido o autor de uma parceria ilustre: Vinícius e Pixinguinha, aos quais encarreguei da trilha”, disse-me Viany. Daí saiu “Lamento”, antigo choro, composto originariamente como “Lamentos”, Agora, acaba de sair um CD com a trilha completa do filme, provando que Pixinguinha continua lá no alto... em mais de um sentido!

 

Pixinguinha

 

Alfredo da Rocha Vianna,

mais um Junior no final,

este um nome que engalana

nossa história musical.

 

Porque era este o nome

do genial Pixinguinha,

que ganhou justo renome

tal o talento que tinha.

 

Compondo, principalmente,

chorinhos em profusão

fez da musica semente

de pureza na emoção.

 

Talentoso instrumentista,

maestro, compositor,

foi mesmo, enfim, um artista

do mais completo valor.

 

Desse valor resultou

o sucesso estrondoso,

que João de Barro letrou:

o famoso Carinhoso.

 

Outra jóia nos deixou:

a canção esplendorosa,

que também fama alcançou,

intitulada de Rosa.

 

Pra falar de sofrimento,

mas num tom sem dramatismo,

nos brindou com seu Lamento,

de um dorido romantismo.

 

Já mais passando carinho,

num compasso caprichado.

foi que fez Fala baixinho,

leve, terno e delicado.

 

Também de sua autoria

são Passatempo, Eu te quero,

Concerto de bateria

e um clássico: o Um a zero.

 

Outro clássico igualmente

é Patrão, prenda teu gado,

tanto quanto é excelente

seu trabalho em Desprezado.

 

E compôs também Pagão,

Gavião calçudo, Kalu,

Vou vivendo, Solidão,

Glória e Samba do urubu.

 

E Vagando, Já te digo,

Abraçando jacaré,

Os home implica comigo,

Naquele tempo e Lá-ré.

 

E Morcego, Cochichando,

Oito batutas, Chorei,

Que perigo, Estou voltando,

Acerta o passo e Cheguei.

 

Bem assim Urubatã,

O urubu e o gavião,

Sonhos, Festa de Nanã,

O rasga e Inspiração.

 

E Os que sofrem, Minha gente,

Samba de fato, Oscarina,

Pula sapo, Paciente,

Não posso mais e Flausina.

 

E De mal para pior,

Dengo dengo, Gargalhada,

Soluços, Mundo melhor

e também Dando topada.

 

Com seu extraordinário

talento para compor

criou O gato e o canário

e, mais, Página de dor.

 

E fez Trombone atrevido,

Vou pra casa, Displicente,

O papagaio sabido,

Maria Conga e Somente.

 

E Yaô, Pretensioso,

Diplomata, Meu sabiá,

Recordações, Generoso,

Desencanto e Vamos lá.

 

Fez Seu Lourenço do vinho

e, sempre honrando a carreira,

Saudade do Cavaquinho

e o Samba da gafieira.

 

E Urubu malandro, Linda,

Não me digas, Cascatinha,

Proezas do Sólon e, ainda,

Espere um pouco e Dininha.

 

Canções assim de alto nível

frequentemente repete;

isto se dá com Sensível

e Um chorinho pra Elizete.

 

Também Assim é que é

aqui tenho de citar,

como Machuca Mané

e Rir para não chorar.

 

Tal qual não posso esquecer

do Choro de gafieira

e de Isso é que é viver.

este, um samba de primeira.

 

Sempre com categoria

fez Voltei ao meu lugar,

Bianca e Ah, eu não queria,

que aqui também hão de estar.

 

Convém ainda que eu liste,

nestas quadras, Benguelê,

Abelardo, Valsa triste,

Teu nome e Quem é você?

 

Também devo pôr aqui,

em meio a rol tão brilhante,

Elza, Carnavá tá aí,

Sedutor e Dominante.

 

Mais Ingênuo, que merece

uma menção com louvor:

é um choro que não se esquece

pois é, de fato, um primor.

 

Nessa amostra aí de cima,

eis o acervo musical,

verdadeira obra prima,

de um artista magistral.

 

Esse acervo, na verdade,

contém uma produção

da mais alta qualidade

e mais fértil criação,

 

Diante dele, só me resta

a estes versos dar fim,

com minha lira modesta

mais louvando o Pinzidim.

 

E louvá-lo mais porque

ele se fez imortal,

dentro da MPB,

como glória nacional.

 

As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 97 (noventa e sete) composições de Pixinguinha.

 

(Sandro Rebel)

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