Academia Niteroiense de Letras

 

Menu  
Diretoria
Conselho Fiscal
Histórico
Patronos
Atuais Acadêmicos
Ex-Acadêmicos
Principais eventos
Biblioteca
Programação
Endereço
Trabalhos Literários
Revista Virtual
Fale Conosco
 
 

   

MPB, um enfoque literário

Lauro Gomes de Araújo

 

Fernando e Eduardo

 

Mesmo que o título possa sugerir uma dupla caipira urbana, não é o caso. Certa vez, ainda no milênio anterior, levei meus filhos ao antigo Tivoly Parque, na Lagoa, e tive e tive a satisfação de encontrar Fernando de Castro e a esposa com os netos pequenos. Foi um papo curto, mas bastante agradável. Depois tive o prazer de dar-lhe os parabéns pelo livro À mesa do Villariño, que lançara naqueles dias... e então foi mais prolongada a conversa. Ali estava o radialista, o compositor, o jornalista, o escritor e o boêmio, um dos sinônimos da noite do Rio de Janeiro e pai de Eduardo, cujo nome ouvi falar, pela primeira vez, nos idos de 1960/61. Ainda quase adolescente, ele dava aulas de violão a minha prima por afinidade, que exaltava, entusiasmada, seus conhecimentos sobre o instrumento. Vida que segue, bem mais tarde trocamos algumas palavras e pude verificar sua simpatia. Aquele do encontro no parque era Fernando Lobo O ainda anônimo professor de violão, Edu Lobo.

Eduardo de Goes Lobo, compositor, cantor, instrumentista e arranjador começou a estudar acordeom aos oito anos, adotando depois o violão. Tinha somente 18 anos quando estreou profissionalmente, em 1961, ao lado de Dori Caymmi e Marcos Vale. No ano seguinte, gravou um compacto duplo com as músicas “Balancinho”, “Sofri, amor” e “Amor de ilusão”, todas de sua autoria e dentro do estilo da Bossa Nova. Ainda em 1962, surgiu “Só me fez bem”, parceria com Vinícius de Moraes, que valeu ao jovem autor a afirmação do seu nome entre os compositores. Sob influência de Sérgio Ricardo, Ruy Guerra, Carlos Lyra e João do Vale, preferiu uma vertente de temática social. Logo seguiu-se uma carreira de intensa atividade, mas pouco conhecida da grande mídia: trilhas musicais para peças, filmes e balés, orquestração e arranjos para vários discos, parcerias com Gianfrancesco Guarnieri, Vinícius de Moraes, Tom Jobim..., além de contrato com a Rede Globo como compositor. Permanência no exterior – Estados Unidos e Europa – proporcionaram-lhe não apenas trabalho, mas aperfeiçoamento profissional. Chegaram os festivais e lá estava Edu Lobo no “I Festival Nacional de Música Popular” (TV-Excelsior), levantando o primeiro lugar com “Arrastão” (parceria com Vinícius), tornando definitiva a interpretação de Elis Regina. Ao “II Festival de Música Popular Brasileira” (TV-Record) compareceu com “Jogo de roda” (parceria com Ruy Guerra) e no I Festival Internacional da Canção/Parte Nacional colocou “Canto triste” (parceria com Vinícius), que figuraram entre as finalistas. Diga-se, aliás, uma das mais belas interpretações de Elis... mas para um público que não alcançou a beleza da composição. O “III Festival de Música Popular Brasileira” (TV-Record) consagraria “Ponteio” como vitoriosa, numa parceria com José Carlos Capinan. Dezenas de composições, como veremos pelos versos de Sandro Rebel, contam-se na obra deste que, sem a menor dúvida, é um dos maiores compositores brasileiros, embora sua música esteja bem acima do grande público.

Sempre fui de opinião de que Edu Lobo pode ser classificado como uma espécie de erudito popular. Violonista exímio, com sólida formação, arranjador de reconhecido talento, talvez ainda esteja para ser descoberto na plenitude de sua obra, por mais absurdo que isso seja.

 

 

Edu Lobo

 

Foi usando os festivais

de nossas televisões

que Edu Lobo tornou mais

ouvidas suas canções.

 

Pois foi isto exatamente

que se deu com Arrastão

e com Ponteio igualmente,

ambas com premiação.

 

E em mais outro, num terceiro,

se destacou outra vez,

pois sucesso verdadeiro

com Upa neguinho fez.

 

 

 

Desde então, ou mesmo antes,

o trabalho que exibiu,

sempre com canções brilhantes,

se expandiu pelo Brasil.

 

Ora só como letrista,

ora cifras a compor,

é e foi sempre um artista

de grandíssimo valor.

 

Andou também trabalhando

para peças teatrais

e, dessa forma, ampliando

os mercados musicais.

 

E assim fez, notadamente

com Chico Buarque, se abrir

mais uma nova vertente

pra seus cantos difundir.

 

Nesse seu labor artístico

um que muito reluziu

foi decerto o Circo místico

que essa dupla produziu.

 

Nele, inclusive, ao contar

a história de uma Lily,

o fez com arte invulgar,

que há de ser louvada aqui.

 

Ao pôr letra no Trenzinho

caipira, fez bonito,

pois colocou no caminho

do popular o erudito.

 

E para a vida de atriz

fez trabalho dos mais sérios,

que chamou de Beatriz

e carregou de mistérios.

 

Aliás, se nem sei quantas

são as canções que ele fez,

devo algumas, entre tantas,

citar aqui de uma vez.

 

Lembro, então, Canção da terra,

Desenredo, Sinherê,

Toada, Um tempo de guerra

e João não sei de quê.

 

Vento bravo, Um novo dia,

Laços, Balada de outono

Quase sempre, Cantoria,

Ave rara e Abandono.

 

Meia noite, Na carreira,

Cambaio, O sim pelo não,

No cordão da saideira,

Lábia e Marta e Romão.

 

Aguaverde, Meu caminho,

Repente, Jogo de roda,

Ilha rasa, Pianinho

e Viola fora de moda.

 

E também Zanga zangada,

tal como Resolução,

merece aqui ser lembrada

pra receber citação.

 

Já, porém, Choro bandido,

pura jóia musical,

há de aqui ser referido

com destaque especial.

 

Canto triste é só beleza,

mas que cai na alma da gente

como se fosse a agudeza

da dor mais funda e pungente.

 

A quem canção bem bonita

aprecia e não despreza,

e muito menos a evita,

recomendo que ouça Reza.

 

E se disto realmente

não desgosta e não se cansa,

aconselho que igualmente

escute, atento, Chegança.

 

E mais Noite de verão

Veneta, Descompassado,

Canudos, Corrupião,

Veleiro e Meu namorado.

 

Também não cabe esquecida

nos tantos trabalhos seus

a mensagem dolorida

que tem Pra dizer adeus.

 

E fez, a mostrar bastante

quanto a música domina,

a superinteressante

Ciranda da bailarina.

 

 

 

Casa forte é outra obra

que demonstra claramente

como o talento lhe sobra,

tal qual um dom permanente.

 

Mas a lista continua

com Casa de João da Rosa,

Meio dia, meia lua,

Cena breve e Preguiçosa.

 

Antes que ela chegue ao fim

me vêm à memória agora

Tororó, Pobre de mim

e Para você que chora.

 

Aliás, para a encerrar

ainda devo pôr aqui

Salmo, O dono do lugar,

Negro e Tango de Nancy.

 

É por todo o exposto, enfim,

posso e devo, sem favor,

dizer que Edu Lobo é, sim,

de muito aplauso credor.

 

Porque cumpriu na história

do musical nacional

uma linda trajetória,

de nível excepcional.

 

   As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente,

   ou sugerem, os títulos de 62 (sessenta e duas) composições de Edu Lobo.

 

(Sandro Rebel)

 

         Para voltar ao índice, clique em Revista virtual.

 

 

Assine o Livro de Visitas
Leia o Livro de Visitas