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MPB, um enfoque literário

Lauro Gomes de Araújo

 

A autenticidade de Martinho

 

... da Vila, dos Carnavais e de uma negritude intensamente assumida. Fala mansa, um modo de chegar "devagarinho" acompanhado de um sorriso sempre presente, aí  está ocompositor e o intérprete tão original quanto Mário Reis ou João Gilberto. Quando estive, certa vez, na bucólica, simpática e acolhedora Duas Barras, ali pertinho de Nova Friburgo, fui encontrar o que prefiro chamar de guarda da memória do seu filho mais ilustre. Foi dali que, partindo do zero saiu o rapaz para a caserna. Mais tarde, à força do seu talento, iniciou a carreira na música popular no Festival da Record de 1967.

Foi nesse ano, também, que começou a compor sambas para a escola da sua Vila Isabel como "Yayá  do cais dourado". Por falar em festivais a "garfagem" neles é antiga a começa bem antes de terem esse nome, passando pela famosa "Cidade Maravilhosa", colocada em primeiro lugar, mas preterida por "Salada portuguesa", de há muito completamente desconhecida... mas ficou a marcha de André Filho, transformada em hino da cidade do Rio de Janeiro. Martinho foi vítima disso no “Festival dos Festivais”, promovido pela Globo. Ele e Zé Catimba, a quem Adelzon Alves chamava carinhosamente de Frank Sinatra da Leopoldina, compuseram certa canção que havia obtido mais pontos do que "Vamp neguinha" na fase das semifinalistas. Perpetrada a recontagem foram Martinho e Catimba desclassificados em favor da "Vamp", de autoria do filho caçula do poeta Augusto de Campos, como informam jornais da época. Sem problerma. A canção de Martinho ficou.... Outro aspecto importante é o amor à sua escola de Vila Isabel. Bem antes de surgir como um de seus principais nomes, já alertava para o descaminho que tomavam as agremiações no rumo, no mínimo equívoco, de serem transformadas em ampresas com a óbvia perda do seu caráter espontâneo, essencialmente carnavalesco. Logo veio o engajamento em inúmeros movimentos representativos da raça, viagens à África ancestral, liderando intercâmbio cultural, apresentações em diversos países com direito a espaço no New York Times, shows no golden room do Copacabana Palace e a sucessão de gravações que lhe garantiram lugar na mídia e "compraram" um público fiel e cativado por aquele sorriso-marca, enfim, da sua personalidade.

Finalmente, cabe registrar que o compositor também é "prosador suave", no entender de Sérgio Cabral. Diz mais o pesquisador: "Se fosse obrigado a reduzir o Brasil a uma só pessoa, não hesitaria: Martinho da Vila, o meu brasileiro predileto" De fato, "Kizombas, andanças e festanças" chega devagar, sem fanfarras e com a modéstia conhecida do compositor, mas dá o recado, o recado que tem vindo através de suas músicas como dirá o nosso Sandro Rebel.

 

 

De fala mansa e tranqüila,

sambista de bom gingado,

este é o Martinho da Vila,

que hoje aqui vai ser falado.

 

Nas suas composições

há presença da poesia

e de doces emoções:

assim é Disritmia.

  

Já no Pequeno burguês,

com ironia sem par,

relata a história que o fez

falar de um vestibular.

 

A vida assim foi levando,

sempre de um jeito fagueiro,

pois até se perguntando

Dinheiro, pra que dinheiro?

 

Num carnaval, deu-se bem

com Yayá do cais dourado,

e, em meio de ano, também

com Danadinho danado

 

Ou compondo ou só cantando,

ou sozinho ou com parceiro,

justa fama foi ganhando

no musical brasileiro.

  

Pois que fez obra, de fato,

bem extensa e de valia,

o mostra abaixo um extrato

da sua discografia.

 

Com efeito, lá estão

Vai ou não vai. Grande amor,

Recriando a criação

e Bom-dia, minha flor.

 

Mulheres. Dente por dente,

Tô na roça e na cidade,

Canta, canta minha gente

e Os heróis da liberdade.

 

Pensar, O pai da alegria,

Quase, Um dia tu verás,

Prece ao sol, Lusofonia

e Tribo dos carajás.

 

E Gurufim do Cabana,

Assédio, Fim de reinado,

Só na próxima semana,

Bossa nova e É cacheado.

 

Suco de maracujá,

É difícil ser fiel,

Ex-amor, Jubiabá

e Presença de Noel.

 

Ò nega, Nó de cipó.

Eta mulher traiçoeira,

A comida da Filó

e Verdade verdadeira.

 

E Batuque na cozinha,

Amor, para que nasceu?

Se essa nega fosse minha,

Marejou e Lá vou eu.

 

Mar calmado, Chico Rei,

Efeitos da evolução,

Calango longo, Dancei

e Batucada no chão.

 

Nas águas de Amaralina,

Devagar, devagarinho,

Camafeu, Graça divina

e Pandeiro e cavaquinho.

 

Recriando a criação,

Samba do trabalhador,

Fetiche, Linha do ão

e Conflito anterior.

 

Vem chegando, chega mais,

Como você, Saideira,

Viajando, Brinquei demais

e Aquarela brasileira.

 

E Deixa a fumaça entrar,

Samba da gema, O caveira,

Não rolou mas vai rolar

e Cidadã brasileira.

 

E Salgueiro na Avenida,

Delírios, Casa de bamba,

Na aba, Reversos da vida

e mais No embalo do samba.

 

Sincretismo religioso,

Ninguém conhece ninguém,

Tá delícia, tá gostoso,

Me curei e Nhem-nhem-nhem.

 

E Partido-alto da antiga,

Tom maior, Melancolia,

Micareta, Minha amiga,

Carioquice e Se algum dia.

 

Nós dois, Amor pra valer,

Minha missão, Cirandar,

Não me canso de dizer

e Para poder te amar

 

Sob a luz do candeeiro,

Ai, ai, ai meu coração,

mais Teatro brasileiro

e Na outra encarnação.

 

E Apaga o fogo, Mané,

Depois não sei, Minha e tua,

Plimplim, João e José,

Volta e Calango da lua.

 

Também Machado de Assis,

Madalena do Jacu,

Boemia, Meu país,

Platonismo e Sururu.

 

E para aqui encerrar

estes versos de uma vez,

lembro Penetrante olhar,

Malandrinha e Timidez.

 

 Assim, com esta listagem,

feita à guisa de louvor,

prestei a minha homenagem

a um artista de valor.

 

Um ás do canto macio,

que fez ser esse Martinho,

mais que da Vila ou do Rio,

do meu Brasil inteirinho.

 

 

As palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem, os títulos de 113 (cento e treze) canções compostas e/ou cantadas por Martinho da Vila.

Sandro Rebel

 

 

 

 

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