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MPB, um enfoque literário
Lauro cortado
Lauro Gomes de Araújo
 
A flauta mágica de Benedito
 
            Conheci de perto o compositor Ciro de Souza e com ele pude gravar e fotografar uma entrevista em sua residência na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel (próximo ao edifício hoje existente na área onde havia a casa de Noel Rosa). Em outra oportunidade, gravamos um vídeo com o compositor e sua família por ocasião dos seus oitenta anos, quando em manhã alegre contamos, também, com a presença do pesquisador Luiz Fernando Vieira, amigo de fé e que muito me ajudou naquela fase em que eu estava apenas “marinhando” em pesquisa. Tanto assim que nem desconfiava de que o pai de Ciro, Belarmino de Souza, tinha sido professor de flauta de um dos maiores músicos do Brasil: Benedito Lacerda, compositor e líder do maior regional daquele tempo. Nascido em Macaé (RJ), veio para o Rio de Janeiro - providencialmente para o Estácio, lugar certo – ainda menino. Depois das primeiras noções, ingressou na Escola Nacional de Música, diplomando-se no instrumento que o consagrou. Seguiram-se atividades como músico da Banda da Polícia Militar e depois da Escola Militar de Realengo. Em 1927, deu baixa e passou a viver dos trabalhos em teatros e cinemas e, em 1929, integrava o grupo Boêmios da Cidade, apresentando-se em São Paulo com a famosa Josephine Baker. Com o advento do cinema falado passou a tocar em grupos de choro e, como saxofonista, em orquestras de jazz. Foi o embrião do que seria o famoso Regional de Benedito Lacerda, antes disso denominado por Sinhô de Gente do Morro. Contava com ele mesmo, já numa segunda formação, além do violão de Nei Oreste e Gorgulho, com o pandeiro de Russo e com o cavaquinho de Canhoto. Depois veio a substituição de Gorgulho por Carlos Lentine e, finalmente, a formação que mereceu o título de melhor regional, assim por muitos denominado, com a entrada de Horondino Silva (Dino 7 cordas) e Jaime Florence  (Meira), a permanência de Russo e de Canhoto. A partir de 1950, Benedito retirou-se, passando a liderança a Canhoto. Mais tarde, o conjunto passaria a ser chamado de Época de Ouro, com Cesar Faria, Jorginho no pandeiro e Jacob na liderança.

Já devidamente biografado pelo pesquisador Jadir Zanardi, será “chover no molhado” falar do instrumentista e compositor Benedito Lacerda, presente em tantas e tantas gravações dos grandes cartazes do Rádio, em cujas principais estações também atuou, além dos cassinos da Urca e Atlântico. Teve várias parcerias, inclusive com Aldo Cabral, Jorge Faraj, Roberto Martins, além da famosa gravação de um disco com Pixinguinha.
 
Fotos de lançamento 3_cortada
Sandro Rebel 
Benedito Lacerda
 
Para minha louvação
a Benedito Lacerda,
quero ter a inspiração
sempre ágil, nada lerda.
 
Só assim, muito inspirado,
talvez consiga aqui pôr
o versejar caprichado
de que ele é merecedor.
 
E o merece não somente
como um flautista invulgar,
mas também como excelente
compositor popular. 
 Ademais, foi quem fundou
um Conjunto Regional
que grande fama ganhou
por ser mesmo especial.
 
Com o genial Pixinguinha
formou uma parceria
da mais apurada linha,
de alto brilho e igual valia.
 
E esse brilho não empana,
nem afeta esse valor,
quando é de Gastão Viana
que passa a ser coautor.
 
Qual se deu com Mário Lago,
com Cristovão de Alencar,
com Oswaldo Santiago,
e com o Jorge Faraj.
 
Como com Jacy Pereira,
Ary. Milton Amaral,
Frazão, Darcy de Oliveira,
Herivelto e Aldo Cabral.
 
Com esses e outros mais
é sempre a mesma a verdade:
fez trabalhos magistrais,
de alta criatividade.
 
Com Pixinguinha, no entanto,
foi que melhor se afinou;
de um sempre veio um canto
que o do outro completou.
 
Dos dois, por exemplo, são
Um a zero, Displicente,
Naquele tempo, Pagão,
É de amargar e Atraente.
 
Mais sucesso ainda lhe veio
quando compôs Jardineira
e, além de Pombo-correio,
Despedida de Mangueira. 

E também com Normalista,
que há seis decênios lançou,
sucesso igual esse artista
com justiça conquistou.
 
E se quero mais algum,
não é difícil lembrar:
recorro a Número um,
uma seresta exemplar.
 
Sua fonte criadora
demonstra, e em profusão,
com Boneca e Professora,
dois encantos de canção.
 
Gravação de Chico Viola,
A Lapa, num carnaval,
como, num outro, Espanhola,
teve aceite triunfal.
 
Talvez não tão conhecidos,
até por isso convém
que aqui sejam referidos
mais cantos dele também.
 
Vale, pois, que eu cite já,
Marilene, Catumbi,
Orfandade, Dinorá,
Nunca e Verão no Havaí.
 
E também Nega pelada,
Você vai ver como eu faço,
Nua, Isis, Madrugada,
Soluços e Acerta o passo.
  
E Brinquei com São João,
Consulte o teu travesseiro,
Foi bom, Ela tem razão,
Pretensioso e Seresteiro.
 
E Cruel separação,
Cachopa, Vivo chorando,
Isaura, Querido Adão
e A cobra está fumando.
 
Mais A rainha do mar,
Teu amor eu desprezei,
Palhaço, Não devo amar,
Gorgulho e Como eu chorei.
 
E Alguém me ama, Não quero,
Vai surgindo a Avenida,
Chora meu bem, Lero-lero,
Vagando e Tua partida.
 
E Coitado do Edgar,
Minueto, No meu colchão,
Pra fazer você chorar
e O diabo disse não.
 
E Que bonito papel,
O carnaval que passou.
Brasil, Sucursal do céu,
Paz e A saudade ficou,
 
E Prometeu me ajudar,
É quase a felicidade,
Quando a saudade chegar,
Tormento e Adeus mocidade.
 
E Doidinho, Tricolor,
Você perdeu, Não faz mal,
Ultima carta de amor
e Noite de carnaval.
 
E O relógio da Central,
A nega sumiu, Olinda,
Mirtes, Vou vender jornal
e A voz do dever ainda.
 
Dança do funiculi
é outro trabalho seu
que há de ser citado aqui,
como Ingênuo e Ele e eu.
 
Recordações de um passado,
tal qual Ninguém ensaiou,
também deve ser lembrado,
bem como E o vento levou.
 
Igualmente citação
nesta lista hão de ter
Lela, Brinca coração,
Cheguei e Só pra moer.
 
E ainda, pra que a termine
com valsa de qualidade,
dele e Nestor Tangerini,
a Dona Felicidade.
 
Pelo exposto já se vê
que esse nosso Benedito
foi, sim, pra MPB,
um personagem bendito.
 
Bendito porque teceu
um punhado de canções,
que compôs ou às quais deu
belas interpretações.
 
Daí que a sua passagem
no musical do país
bem merece a homenagem
destes versos que lhe fiz.

 

 

As palavras grafadas em negrito reproduzem literalmente, ou sugerem claramente, títulos de composições de Benedito Lacerda

 

         

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