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Prata da Casa

Paulo Roberto CecchettiI

 

I

Mrs. Hertzer Golf está com problema sério. Descobriu-se nele o Mal de Parkinson. Doença adquirida de tanto circular pela ondulante Estrada Francisco da Cruz Nunes. Ainda bem que Mrs. Golf tem antídoto: airbag. Fecha-se a porta. Ou melhor, o pano... rapidamente.

II

Bus stop... próxima parada para aturar um chato ilustre. Ilustre? Eu sou irmão da... Como vai, bem!? Pois sim, eu sou irmão da... e segue a lotação. E tome de blá-blá-blá, e goles, e outro blá-blá-blá... Eu sou irmão da... De que adianta talento se ele tá muito louco, agitado pelo salão das artes! Mas eu sou irmão da... Essa praga embriaga, não para de falar e interromper qualquer bate-papo. Como é chato o trocador do lotação da dama.

III

O poeta morreu! E morreu na fartura, entalado num croquete de coquetel, pois comia feito marionete em solenidade acadêmica. Endêmica constatação que ataca olhos, boca e dentes, numa gula sem fim... Triste ocaso do poeta em noite de gala! No gole borbulhante escafedeu-se entre bandejas de quitutes para nunca mais ser encontrado pelos seus pares que ainda assaltam os happy hours dos corredores literários no combate ao evento fome zero da cultura.

 IV

No trânsito momesco, em meio à euforia da folia, com o surdo na marcação, vão desfilando (e desfiando) pardais pelas avenidas para surpresa da platéia automotiva car(ro)navalesca. O motivo é arrecadar fundo infindo com multas que maltratam ainda mais os contribuintes fantasiados de eleitores. Ao volante, entre marchas e sambas, na contramarcha da cidadania dançamos – feito alegres palhaços – neste enredo mirabolante de faraônicos fariseus. E o sinal continua amarelo.

V

Falso poeta se apresenta no Calçadão da Cultura como poliglota... Pimentel pergunta: — Passivo ou ativo? Fim do primeiro ato. No Calçadão, poeta ecológico consulta o presidente do Grupo Mônaco de Cultura: — Pimentel, posso declamar? — Pode, mas sem psiu!... Fecha o pano.

 

(Do livro Gaveta de palavras, no prelo. Os contos haicainianos aqui impressos e revisados foram compilados de O CAIS em revista no período de maio/2003 a março/2004).

 

 

 

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