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Prata da Casa Carlos Rosa Moreira
Anamnesis
Hoje eu acordei com vontade de você. Uma vontade de sentir sabor e cheiro, de ver sorriso, de descobrir olhares. Vontade que é saudade de tudo que você é. Do céu estrelado sobre os costões selvagens batidos pelo oceano, do ranger dos nossos pés sobre a areia quente e fina, do perfume do mar trazido pelo vento leste, da lua imensa, muito maior do que qualquer ilha; dos vastos cardumes de tainhas que volteavam próximos às praias durante o dia e dos fosforescentes bandos de lulas que atraíamos com os nossos lumes na escuridão da noite alta. Acordei tonto de vontade de puxar rede com os pescadores, tendo seu corpo de sereia coladinho ao meu e nossas mãos se tocando sobre a aspereza da corda molhada; da distante luz de lampião que havia em nossas noites, humilde súdita dos nossos luares tão claros. Acordei assim, querendo ver você, seu sorriso de verão, seus olhos castanhos de mar. Fugir de mãos dadas do terral vespertino que açoita a pele com agulhadas de areia e depois dormir com seu perfume nos lábios, embalado pelo distante rugir do oceano. Acordei com o cheiro da água salgada no nariz, aquele cheiro que deixa na boca um sabor de ostra fresca, retirada da pedra e comida durante um banho de mar. Depois passear pela cidade no calor do poente e ver a lua nascer no velho cais. Acordei, assim acordei, com essas idéias do que já não existe, do que não é bom rever, do que só é bom ter idéia.
Renato Augusto Farias de Carvalho
Manaus
Palhas que entreabro Musgo, sedimento entranhado Pra me balbuciar A gramática de lições Cansadas No inchaço abdominal Do quarto
Revolto espaço indultado Quarto de obscenas vezes Onde escondi A casa plantada E eu por lá – Descalço – Batente de cimento quente Predizendo No bairro árabe Sons... Parecendo risos, ou acenos de separação.
Verso-do-vinho
Atrás do pano de fundo o fundo monetário atrás do rabo de foguete o rabo escondido do gato-da-história atrás do lado bom do homem o lado mau, e bem atrás o-verso-do-vinho na fina garrafa de vitrine
Tanque de combustível danificado pane hidráulica no músculo escarlate do coração. Dia ruim é assim: cuspe na geléia e no pão Amanhã sim. Amanhã vai ser bom Haverá verso limpo no poema e na canção
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