|
|
||||||||||||||||
| Menu | ||||||||||||||||
|
![]()
Prata da Casa José Inaldo Alonso Soneto elegíaco Toda a saudade antiga do não fui e do não tive escorre-me do ser. O rio da memória inútil flui prestando as contas do meu ter e haver.
Neste balanço de desesperanças esvaio o tempo de aprendiz de outono, caminhando os atalhos das lembranças, nas madrugadas em que foge o sono.
Busco e rebusco os rastros dos andados e argamasso com lascas de ternuras paredes novas da mansão morrida.
para a tarde que chega nas procuras, encharcando d prantos derramados os vazios da vida não vivida. Soneto do quase ser O cansaço dos verdes sem aurora, cacos de ocasos pelas madrugadas. A inútil teimosia das jornadas e a procissão do azul pondo-se fora.
Tantas buscas falidas, mas tentadas nas sucatas de acasos, hora a hora. A construção dos dias, vida afora, edificando catedrais de nadas.
A insistência do ideal, pingando luar, pelos caminhos frescos de esperanças nas mil e uma noites das andanças.
E esse avançar em sombra sem chegar. Barco vadio no oceano a errar. Perpetuamente sem crescer. Crianças.
Partilha
Haverá o azul com pássaros e nuvens e os verdes para orgias de esperança. Haverá a noite, seus abismos de silêncios e hectares de estrelas maduras para as segas da luz. Haverá as manhãs primeiras do mundo para território dos poemas. A fazenda do mar com alqueires de algas, rebanhos de hipocampos e as retinas surpresas de todos os afogados para repouso definitivo. Haverá o rio do luar coleando pelo chão das noites a fio e o cometa de Halley para indicar os séculos. Ilhas esquecidas para o deslumbramento da invenção. Um relógio de sol e uma ampulheta de sonhos para marcar os tempos. Uma bússola de ocasos para encontrar o norte do Seria. Os flancos e o regaço da Amada para a renovação do Homem. Haverá o pião, as bolas de gude e a rua de cima para buscar o Menino perdido.
Elegia para Stella
No cemitério de Charitas repousa o teu corpo tranquilo e definitivo.
No cemitério de Charitas assistes a ronda do luar farfalhando carícias na amendoeira frondosa e nas casuarinas esguias.
E ouves os cochichos dos pássaros no aconchego dos ninhos, trocando azuis recolhidos.
No cemitério de Charitas guardas nas retinas mortas tua primeira visão de Deus.
E teces silenciosamente uma túnica sutil e inconsútil de roxos e verdes ocasos e manhãs para o reencontro.
No cemitério de Charitas esperas por mim e pelo Juízo Final.
(Poemas constantes de Águas de outono.Nitpress. Niterói, RJ. 2008).
Branca Eloysa
Velha caixa de botões antigos
Apenas uma arrumação numa latinha de botões. Guardados de minha mãe. E as lembranças. Encontrei botões de vinte, trinta anos atrás. Pequenas rodelas forradas de fazendas coloridas e fatos enterrados no inconsciente vieram à tona. Botões de quando eu estava com oito ou nove anos, dez talvez. De um certo vestidinho de listas azuis que usei em uma manhã de domingo para ir à missa na igrejinha do Saco de São Francisco.Estava febril – amigdalite – mas queria ir à missa. Devoção exagerada? Não. Vontade de namorar. Os escoteiros do mar iam àquela missa. Namorávamos com olhares e sorrisos, sob a proteção benévola de Nossa Senhora de Lourdes. Mãe de verdade é sempre tolerante. Botões de veludo de um casaco azul – traje de gala – para ir fazer compras no Rio, na barca das três (a brisa do mar era suave e cheirosa) e lanchar na Confeitaria Colombo ao som de violinos. De um vestidinho de verão, estamparia alegre e miúda, amarelos e laranjas, modelinho desenhado por mim para umas férias em que a bronquite me pegou de jeito. Só fiquei curada depois de uma temporada de férias em Santos, na casa de Dariette, irmã de meu padrasto. Voltei ótima. Queimada pelo sol e com possibilidade de novas experiências. Possibilidade cortada no nascedouro. Experiências desejadas, jamais realizadas. A repressão materna era um sufoco. Botões de um vestido vermelho de pois com babadinhos de organza branca, plissados, feito para um carnaval. Eu não devia me fantasiar, minha avó morrera naquele ano e não ficava bem. Escapuli da empregada, sob cuja tutela ficara, e fui para o clube Canto do Rio (já combinara previamente com as amiguinhas), onde pulei e dancei à vontade com um guri charmoso, mais tarde importante médico em Niterói. Foi das poucas atitudes minhas na vida. Uma das raras vezes em que a vontade de viver sobrepujou meu medo congênito. Para conseguir entrar no clube, venci minha insegurança e pedi a um pai que acompanhava seus filhos se podia me “botar” lá dentro... Meu coração está acelerado, minhas mãos estão geladas. A vida passou depressa demais. Estou quase velha. De repente. Não tive tempo para assimilar essa constatação. Preciso assumir que o tempo passou. O sonho acabou. E a festa de minha vida nem ao menos aconteceu.
(Texto constante de Rua Ana Barbosa, 45 – Meyer. Clube de Literatura Cromos. Niterói, RJ. 1990). Para voltar ao índice, clique em Revista virtual.
|
|||||||||||||||
| Assine o Livro de Visitas | ||||||||||||||||
| Leia o Livro de Visitas | ||||||||||||||||