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Prata da Casa

Silvio Lago Jr.

 

Sumário de seu pensamento cultural e estético

 

Na contracorrente ou o elogio do pluralismo

 

            Na contracorrente

 

“Não dirás que tua verdade é a única,

 e sim aquela em que mais acreditas”

William James

 

                        Prelúdio.

 

Estar na Contracorrente é caminhar, quando necessário, no sentido oposto ao da tendência geral de mediocrização da vida, de deterioração dos conceitos e do sentimento estético.

É participar da negação radical de certos valores do mundo, mas ao mesmo tempo, cultivar aqueles que devem ser preservados.

É deter uma cultura crítica capaz de hierarquizar os valores essenciais, de fazer escolhas, de afirmar o julgamento, de ampliar a reflexão e de ser múltiplo com as formas de pensamento.

É encontrar nas artes e na cultura todas as razões de viver, com permanente curiosidade intelectual e ao mesmo tempo desconfiança em relação a verdades absolutas.

É saber enfrentar um mundo às vezes asfixiante, medíocre, turbulento, antiético e devastado pela competição, pelo exibicionismo e pela crescente influência da “razão cínica”, da cobiça, inveja e outras derrotas humanas que envenenam o mundo.

É rejeitar a uniformidade, a monotonia das visões estreitas, afirmar a independência e a originalidade das opiniões e dos conceitos, afastado de qualquer autoridade espiritual, diretores de consciência, gurus e líderes. O ser humano tende quase sempre se refugiando em sistemas e utopias.

É não ter assim mentores, mas fervorosas admirações que habitam os livros de nossas bibliotecas.

É recusar-se à submissão das imposições da época do ponto de vista dos gostos, interesses, valores culturais, modas e modismos que quase sempre são constituídos de matéria grosseira da vida.

É ser livre, dono de idéias e caminhos próprios, defendendo opiniões que parecem estar contra os ventos e marés, mas identificado com valores que integram aquilo que chamamos civilização, sob o signo da razão livre de tutelas.

É considerar que a escolha dos próprios caminhos implica em não seguir os passos de nenhum homem, mesmo que mais sábio do que nós.

É não pertencer a sistemas, religiões, seitas ou qualquer tipo de organização ou agremiação e dessa forma não estar investido da missão de mostrar caminhos, de salvar ou persuadir alguém.  É não fazer questão que ninguém concorde com nossos pensamentos ou convicções.  Não obstante, é reconhecer como necessária a existência de um ideal para os projetos do homem e de cada ser  humano.

É considerar que a busca do absoluto ou mesmo do mais simples ponto de vista do senso comum ou da vida ordinária, são imposições exclusivas de cada livre pensar.

É não crer que o céu e a imortalidade estejam reservados somente para qualquer religião ou seita.  Deus não é religioso nem sectário, afirmou um filósofo.

É considerar que o que se diga ou escreva é apenas fruto de uma opinião pessoal, com muitas possibilidades de erros e acertos.

Deve ser um exercício da livre busca e por isso mesmo do livre arbítrio, uma atitude ditada pela consciência, pela reflexão e pelo dom do pensar.

Estar na contracorrente é fazer da vida uma torre de observação intelectual e da sensibilidade, longe de sistemas que pretendem certezas definitivas que nos forneçam ilusórias consolações.

É evitar o mundo dos figurões, dos medalhões, dos notórios, dos afamados, dos importantes e notáveis, dos senhores da hora e do poder, que vivem mergulhados na auto-admiração e na mediocridade triunfante, com importâncias e poses tão duvidosas quanto ridículas e efêmeras.

É considerar que os melhores atos da vida são os de amizade e de seu culto, os da bondade e os do prazer de servir.

É cultivar as virtudes difíceis e muito esquecidas do conversar, de escutar e o prazer do convívio e da intimidade.

Estar na contracorrente é ter uma atitude intelectual contra a engrenagem burocrática, o terror do Estado, o horror ao capitalismo e da máquina propagandística que pretende nos fazer aceitar uma ordem econômica injusta, como o único sistema viável e válido.

É festejar a vida com os nossos cinco sentidos de acordo com a fórmula de seu maior especialista, Arthur Rubinstein.

Festejar a vida amando as artes verdadeiras que nos emocionam, nos fazem chorar, nos revelam e exaltam e, sobretudo, nos fazem pensar.

É não acreditar nos pessimistas, nos céticos, nos cínicos e nos medíocres da existência.

 

Dos grands simplificateurs e do pensamento único

 

São os mercadores do fácil luxo das explicações sobre a vida pela meia-ciência, inimigos das diferenças do pensamento, da multiplicidade dos diversos saberes e da infinita variedade de expressão do espírito e da cultura.

O determinante maior dos Grands Simplificateurs é o sistema de pensamento único que pretende transformar as verdades num caminho exclusivo e irredutível traçado por pretensos mentores da felicidade individual e coletiva. Estar na contracorrente do pensamento único é viver na solidão da dúvida e das escolhas, é dar um sentido particular à vida e de consagrá-la como melhor nos parecer.

 

Do mundo infantilizado e dos prazeres idiotas

 

Estar nessa contracorrente é optar pela cultura num mundo de diversões apenas sensoriais e banalizadas. É estar consciente com relação ao progressivo rebaixamento da inteligência, num mundo infantilizado, sobretudo pela música, pela poesia e pela publicidade que estimula obsessões aquisitivas e ostentatórias. É rejeitar a vida dos prazeres idiotas, narcisísticos e estandartizados e baseados na uniformização da vida social. É ser a consciência crítica da mediocridade circundante e de todas as formas de embrutecimento da razão, da sensibilidade e das percepções.

 

Da visão medíocre

 

É aquela que confunde o grande com o pequeno, o importante com o acessório, o superficial com o essencial. É também aquela que não sabe discernir o falso do verdadeiro, o natural do fictício, o contingente do imanente. O medíocre é aquele que tira forças de sua própria mediocridade, amando as simplificações, o fanatismo das idéias e a banalização do pensamento e das artes.

 

A submissão e o mal

 

“A grande palavra que se está a precisar nem sequer é a paz.

A grande palavra que se está a precisar é “não”.

Saramago

 

Estar na contracorrente é não temer dizer “não” aos prepotentes e aos poderosos, aos que não nos respeitam, entediam, exploram ou abusam da boa fé e confiança.

É mostrar-se altivo ante os arrogantes, os presunçosos e os tolos.

É considerar que a poesia continua a ser possível, mesmo depois de Auschwitz, contrariando o que sentenciou o filósofo alemão Theodor Adorno.

Por outro lado, é impossível pensar em civilização, responsabilidade, possibilidades humanas e no mal, sem esbarrar em Hitler e nos demais sistemas totalitários.

Estar na contracorrente é não aceitar certos valores desta civilização, com seu ethos hedonista, consumista e competitivo que estimula o que há de melhor nos produtos e mercadorias e o que há de pior nas pessoas, destruindo a própria humanidade do homem, sua dignidade, sua identidade.

 

O êxito fácil e o reconhecimento

 

Estar na contracorrente é não esperar homenagens e reconhecimento de que não se precisa, jamais cortejando o êxito fácil dos valores da aparência e da popularidade.

É participar de causas generosas, principalmente de “trabalhos que não dão dinheiro mas dão vida superior”, para usar uma fórmula de Mario de Andrade.

 

Cultura de massa e cultura pop

 

Em larga medida a Cultura de Massas é um monstruoso multiplicador da estupidez humana que não pode destruir os valores mais sólidos da civilização.

Estar na contracorrente é voltar-se para os valores de uma civilização refinada, vivendo em reverência a uma tradição de permanência, estando sempre aberto a tudo o que é novo e inovador.

 

O valor da palavra

 

Sabemos todos que a magia da palavra vem sendo perigosamente substituída pela das imagens e como se fosse pouco, com a perda da clareza, da precisão e do refinamento. Neste particular, o poeta mexicano Octavio Paz escreveu que “quando uma sociedade se corrompe a primeira coisa que gangrena é a linguagem”.

Estar na contracorrente é atribuir a máxima importância à linguagem, pois cultura é sobretudo patrimônio da palavra. Mas atenção, a retórica sem a reflexão é fútil, vazia e oca.

 

A leitura e o livro

 

Esta na contracorrente é não aceitar o fato da humanidade passar da cultura da leitura para a civilização do olhar. É considerar que o verdadeiro ato da leitura é na opção de Ecco, “o escalar uma montanha e não o passear num supermercado”.

Pelo livro conquistamos novos conhecimentos, iluminamos nossos caminhos e fazemos da vida uma descoberta de cada momento, convivendo com os mestres e os gênios no silêncio de nossas bibliotecas.

 

A estética da vida

 

Estar na contracorrente é estetizar a existência e nunca perder o senso da beleza, que mais do que uma estética da vida deverá ser uma filosofia da vida.

É acreditar na dignidade da arte e no valor essencial de suas expressões.

É saber que o conhecimento das artes é projeto para toda a vida.

É uma forma de estar à altura do dom da vida, usando sempre a mente e a sensibilidade para fazer jus ao privilégio de ser humano.

É cultivar a elegância dos gestos e atitudes, o apuro na linguagem e o horror às estridências, considerando que cada um tem direito ao seu estilo.

Finalmente, estar na contracorrente é nunca perder o dom da esperança e o encanto de viver.

 

Perfeita barbárie no apogeu da civilização

 

Já foi dito, mas não é demais repetir que os livros são objetos que amamos pelo que contêm de informações valiosas, belezas e sobretudo de prazer com o ato de ler.  De todos os objetos criados pelo homem o livro é talvez o que nos dá mais angústia com relação a cada momento perdido de leitura ou de urgência dramática de ler para não perdermos valiosos momentos da vida.

Podemos supor que num futuro incerto, quando os textos impressos forem convertidos em imagens, mesmo assim, alguns ou muitos continuarão a dar supremacia à leitura.

            Estar na contracorrente significará considerar que o conhecimento, a reflexão, o diálogo, o saber e o ato da leitura não podem ser substituídos pelo ato de “acessar informações”, que fornecem a ilusão de que a disponibilidade da informação pode significar estar informado ou ter acesso à cultura com reflexão.

            Na realidade, o desparecimento do livro, para usar uma expressão de Marcuse, “seria o estado da perfeita barbárie no apogeu da civilização”, com a decadência da linguagem, o predomínio do coloquial, o empobrecimento lexical e semântico decorrentes de uma informatização generalizada.

            Lembremos ainda e a propósito, a “perfeita barbárie” dos assustadores video-clips, dos mega-shows, da louvação de mercadorias, da necessidade de sensações chamativas e da informação sensacionalista.  Por um lado, a leitura ainda como uma possibilidade e por outro, o consumo, o mercado, a fuga, o embotamento do juízo estético com o primado “do emocionante” e “da sensação”. Por um lado, as bibliotecas, por outro o “salvar informações em arquivos” e os “discos rígidos”.

            No terreno da música sucateada pelos três tenores, corremos com o risco agora dos clássicos light, do clássico Punk, do clássico Riev, do mero consumo do Adagietto da 5a Sinfonia de Mahler nos metrôs do Rio de Janeiro.

            Tornou-se comum a seleção de clássicos como se fossem “conservas” musicais ou de florilégios popularescos do tipo Natal ou Viena (ou Berlim), com uma estrela Pop cantarolando coadjuvada por Plácido Domingo ou José Carreras, melosas e conhecidas canções natalinas.

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