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Prata da Casa

            Sávio Soares de Sousa

 

Saudades de Maracaibo

 

            Velhos marujos, dizei-me:

            aonde vai minha escuna

            tonta, sem vela e sem leme?

                        (Saudades de Maracaibo,

                        onde as desembarcarei?)

 

            Navegador inexperto,

            estou perdido, sem bússola,

            em verde, móvel deserto...

 

            Durante a noite, as gaivotas,

            desconjuntando as estrelas,

            mudaram todas as rotas:

            e os ventos, mancomunados,

            espalharam sóis iguais

            no céu, por todos os lados...

 

            Velhos marujos, dizei-me:

            aonde vai minha escuna

            tonta, sem vela e sem leme?

                        (Saudades de Maracaibo,

                        onde as desembarcarei?)

 

            Velhos marujos, que faço

            para salvar das procelas

            este fardo de saudades,

maior do que a minha escuna,

pouco menor do que o mar,

                        (saudades que carreguei

                        do golfo de maracaibo

                        por onde nunca passei...)

            velhos marujos dizei:

            que faço para as salvar?

                        Onde as desembarcarei?

 

 

Estreia

            No teatro, ante monóculos e plumas,

            o violino fazia cócegas no silêncio...

 

            Mas o silêncio não se ria:

            o silêncio chorava

            pelos olhos do pai do violinista.

 

 

Décima sétima

 

            Espelho, devolve-me o retrato.

            O retrato sem retoques.

            O retrato bruto.

            Eu mesmo – direita na direita, esquerda na esquerda.

            O ar quase infantil onde começam a apontar as rugas.

            Os olhos meio tristes, sem saber se devem denunciar a alma culpada.

            Os dedos inquietos a brincar com alguns fios do bigode ralo.

            E esta indecisão traduzida em todos os meus gestos.

            E estas palavras tontas de inutilidade.

            E esta incapacidade insuprível para fazer declarações de amor.

 

 

O homem e sua morte

 

            Foi minha morte que nasceu comigo.

            Trago-a em mim, circulando nas artérias,

            latente em cada célula, no fundo

            tranquilo de minha alma resignada.

 

            Em verdade, nasceu com a minha sombra,

            ou é talvez a própria sombra incôngrua,

            com que diuturnamente me confundo,

            ao meio-dia, sobre o chão da estrada.

 

 

 

            Sou igual aos demais, de igual destino.

            Pouco me importa o prazo destas férias,

            nem me inquieta a imutável companhia,

 

            que de mim nunca mais se apartará:

            no instante em que, sem luz, se suma a sombra,

            comigo a minha morte morrerá.

 

(Do livro O salto & o paraquedas. Editora Primitiva. Niterói, RJ. 1963).

Obs: De acordo com a nova ortografia da língua portuguesa.

 

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