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Prata da Casa

(Seção destinada à divulgação de textos de Acadêmicos Titulares da ANL).

 

Gracinda Rosa

Gracinda Rosa

 

Momentos

1 . Mãos

Mãos que se agitam, pequeninas, incansáveis, curiosas, buscando conhecer o mundo, sempre prontas a tocar em tudo que encontram à sua volta, ávidas do contato que lhes permita desvendar o mistério de cada coisa nova que atrai a sua atenção.

Essas mãos pequeninas seguram com tanta firmeza, agarram, negam-se a largar como se quisessem prender a vida.

São mãos que se comunicam, expressivas, ora se movendo, aflitas, para demonstrar uma dor; ora espevitadas, vivazes, evidenciando um momento de alegria.

Afinal, acalmam-se, aquietam-se e repousam, placidamente, durante o sono tranquilo de meu filhinho.

 

2 . Viver a vida

Sei que tenho que viver todos os meus dias, um após o outro, sem saber quantos serão, à espera daquele dia final em que deixarei de contar o tempo pelo calendário da Terra. Enquanto a morte não vem, sigo vivendo, sabendo que cada dia é dia de viver. Muitas vezes, porém, durante a caminhada, sinto-me triste, revoltada, amedrontada, perplexa, até, diante da constatação de certos acontecimentos que esses dias vividos podem apresentar, quando a televisão ou os jornais me mostram os atentados, as catástrofes, a fome, os acidentes, a corrupção e as mais diferentes espécies de crime contra a humanidade. Então, me vejo observadora impotente diante de tantas calamidades.

Nos momentos de crise existencial, muitas vezes volto a sentir aquele desejo tão próprio dos adolescentes, de poder me fechar em um armário, só saindo de lá quando todos os problemas estiverem resolvidos. Mas é impossível fugir à realidade, é necessário viver cada um dos meus dias.

Recomendava Marco Aurélio (121-177) em suas Meditações*:

“quando a força das circunstâncias te deixar como que transtornado, volta depressa a ti mesmo; não fiques fora do ritmo além do necessário, porque serás tanto mais senhor da harmonia, quanto mais frequentemente voltares a ela,”

Não podemos deixar de viver aqueles dias que parecem desprovidos de beleza, que mostram a dor, a injustiça, a fatalidade às vezes cruel. A vida é feita do feio e do bonito, do escuro e do claro, da triste e do alegre... Não podemos ignorar o lado feio da vida; tampouco devemos deixar de valorizar seus bons momentos. As alegrias podem ser renovadas a cada dia, através de um sorriso de criança, do perfume de uma flor, de um gesto de bondade, de uma palavra agradável, um momento de carinho, um olhar de aprovação, uma prova de confiança... E se tivermos “um milhão de amigos”, como sugere Roberto Carlos em sua canção, a vida poderá ser bem mais leve e feliz e então, cada dia que temos que viver, cada dia vivido, poderá ser bem melhor.

 Meditações – Marco Aurélio – Ed. Cultrix.

3. Asas

Quando a imaginação cria asas, voa pelo espaço em busca de lugares, próximos ou distantes, pelos quais viaja sem barreiras, e encontra ondes para situar a criação do artista. Que pássaro, por mais veloz que seja, poderia atingir espaços tão variados? Voa, também, pelo tempo, à procura de momentos, passados ou futuros, em que os fatos possam acontecer, e descobre quandos para fixar as épocas idealizadas. Que avezinha, por mais leve e sutil, poderia viajar assim através do tempo?

Voando, a imaginação pode, ainda, definir o quem, o como e o porquê desejados, pode engendrar amores, perfídias, loucuras, dores, alegrias e cores ou desvendar mil nuanças de sentimentos, em qualquer tempo, em qualquer lugar. É um voo sem limites, rico em formas e fundos do cenário pretendido.

Mas, quando se cortam as asas da imaginação, ela queda pesada e inútil, não consegue alçar voo em nenhuma direção, deixa de criar.

 
4. Uma alma elegante

Tomei a lancha e me sentei no lugar costumeiro. Ventava um pouco. Olhando pela janela, podia deixar meus pensamentos vagarem livremente, através de variadas lembranças, enquanto contemplava a vista da baía. Ali, com o pensamento solto, sentia-me bem, podia esquecer que tenho um corpo. Isso me dava uma sensação de leveza, como se não fosse verdade que estou velha e feia.

Hoje, depois de me arrumar para a ida ao Rio, ao consultar o espelho pude comprovar, mais uma vez, que não estou apenas envelhecida, mas encurvada, gorda, bastante acabada. E sei que tudo isso é irreversível, pois jamais tornarei a ter uma forma física agradável de ser olhada. A pele das mãos enrugada e cheia de manchas escuras, um início de papada sob o queixo, flacidez aqui e ali e nem sei mais quantos sinais de que a velhice já está bem acentuada.

Foi fácil me acostumar com os cabelos brancos. Mas no conjunto as marcas do envelhecimento falam tão alto que, antes dos 65 anos os motoristas já paravam o ônibus abrindo a porta da frente para mim. Nos bancos, sempre que entrava na fila comum, alguém, solicitamente, me indicava a fila dos idosos. E não estou falando da osteoporose, das artrites, da vista cansada...

Fico pensando: se eu conseguisse emagrecer um pouco, não me sentiria tão deselegante, com esse jeito de saco de batatas. Mas, pelo que vejo, jamais voltarei a perder essa gordura que me arredonda o corpo. O jeito é me conformar e, sempre que possível, esquecer que tenho um corpo, como faço em momentos como este em que estou viajando. Sinto que minha alma ainda é leve e, creio, com o decorrer do tempo, enquanto o corpo vai envelhecendo mais e mais, a alma, que tende a se aperfeiçoar, vai se tornando cada vez mais elegante. Consola-me, pois, saber que em breve deixarei esta embalagem decadente e poderei seguir, leve e elegante, pelos desconhecidos caminhos de um outro plano.

 5. Redondilhas do adeus

 

Velando o menino morto
Chorava bem de mansinho...
Era o último acalanto
Para embalar seu filhinho.

 

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