Elenir Moreira Teixeira
“Do material que uso, as palavras pertencem
a todo mundo e estão no dicionário. As idéias são da humanidade, chegadas a
mim no convívio de todos, cultos e iletrados. Só a teia é minha.”
(Millor
Fernandes)
Ler Ficção - Mergulhar na aventura
ou investigar entrelinhas?
Stephen Kanitz, articulista da revista Veja, no artigo
intitulado “Intenções por trás das palavras” e Amós Oz, escritor israelense,
na Introdução de seu livro E a história começa, teceram sua própria
teia ao falar da produção literária. A comparação dessas duas abordagens
sobre o mesmo assunto é o que me proponho fazer no presente trabalho.
O senhor Kanitz inicia seu artigo afirmando que muitos
escritores, cientistas e formadores de opinião usam e abusam de nossa
confiança elaborando seus textos com intenções ocultas, as quais denomina
“agenda oculta”. A primeira coisa que tento adivinhar, ele diz, é a agenda
oculta de escritores, colunistas e pseudo-cientistas. Sempre desconfio
delas. A partir daí, passa a dirigir sua crítica, apenas, ao escritor e de
forma generalizada. Mestre em Administração de Empresas; Doutor em Ciências
Contábeis; Professor Titular de Economia e Contabilidade, da USP e ocupando
cargos referentes à Consultoria e a Aconselhamento Empresarial, lida sempre
com ciências exatas, sendo compreensível, até certo ponto, sua desconfiança
quando se trata de um texto literário e, especialmente, o ficcional. Está
acostumado a procurar o que existe de verdade por trás de demonstrações
financeiras habilmente mascaradas ou dados ocultos nas entrelinhas de
contratos comerciais. É sua função. Não se justifica, entretanto, sua
afirmação: “A nação idolatra quem faz parte da academia de letras (sic), os
bons de bico, e não os que calculam bem e com rigor científico, ignorando os
membros da Academia Brasileira de Ciências. Por isso, somos um país do me
engana que eu gosto”. Não se reconhece, aí, o autor dos artigos “Como
Combater a Arrogância”, “Práticas de Cidadania” e “A
Importância da Ética”. Se ele usou expressão de uso popular para
criticar o país e seu povo, entendemos cabível, de igual forma, citar a
expressão, também popular, “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
Contradizendo a afirmação de Kanitz sobre a necessidade de nos
mantermos sempre atentos quanto às possíveis agendas ocultas dos escritores,
julgamos oportuno citar alguns valiosos pronunciamentos referentes à
produção literária e ao escritor. Jacques Derrida, filósofo francês e autor
da Teoria da Desconstrução, ao abordar instigantes questões sobre a
literatura, assim, se manifestou: “Quando o livro fica pronto ele segue vida
própria. É o parricida de seu autor, na medida em que permite sua
desconstrução em infinitas interpretações, de acordo com o olhar de cada
leitor”. Compartilha desse mesmo entendimento, Roland Barthes, filósofo e
escritor francês, ao dizer que, ao término do livro, dá-se a morte do
escritor, pois, aí, ele já não lhe pertence, cabendo, ao leitor, completá-lo
com seu olhar. Para Wolfang Iser, expoente máximo da literatura alemã, e
autor da Teoria da Recepção, a leitura é um processo de reconstrução
do texto. Confronto entre a construção do autor e a reconstrução feita pelo
leitor enquanto procede à sua leitura. A reconstrução não é intencional.
Faz-se naturalmente e pode ocorrer de várias maneiras, de acordo com a visão
de cada leitor.
Naturalmente, a fantasia, no texto, pode entrelaçar-se com os
pensamentos mais secretos e ocultos do escritor sem que ele próprio se dê
conta. Assim, não somente o leitor se surpreenderá com os achados
provenientes de seu olhar, mas também o próprio autor.
É impossível, entretanto, pretender-se comparar os textos
científicos e os puramente literários. Se Kanitz, com seu artigo, desejava
chamar a atenção para a Academia Brasileira de Ciências, tudo bem. É
louvável. Tanto os grandes cientistas , quanto os grandes escritores,
merecem respeito e admiração. Acreditamos que o cientista ao descobrir uma
fórmula, resultado de pesquisa, talvez de muitos anos, de inúmeras e
exaustivas tentativas e de muitos erros, deve confrontar-se com aquele
instante de epifania e incandescência, o verdadeiro “heureca barthesiano”
gozado pelo escritor ao conseguir trazer para a página em branco a palavra,
ou a frase ou a idéia que buscava para iniciar seu romance. Entretanto, o
processo de escrita de ambos é completamente diferente. O cientista, quando
começa a escrever, já tem algo para dizer. Não luta com a folha em branco a
que, antes, nos referimos. O escritor quer dizer algo. Sente necessidade de
escrever. Um desejo genuíno. Verdadeira compulsão. Para Roland Barthes,
somente as obras literárias dão testemunho do Querer-Escrever, e, não, os
discursos científicos.
Concluindo, gostaríamos de comentar que, a nosso ver, Kanitz
teria tentado persuadir o leitor a compartilhar de seu ponto de vista,
utilizando-se, ele próprio, de agenda oculta, ao citar a frase infeliz de
Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos:“Na ficção pegamos o
leitor desprevenido”. Como atribuir-lhe intenção oculta de ludibriar o
leitor, porquanto seu objetivo era, justamente, chamar a atenção do povo
contra a ditadura e o fundamentalismo islâmico, sendo, por isso, censurado,
perseguido e ameaçado de morte?
O mesmo ocorreu entre nós, durante a ditadura militar, em que
apareceu a literatura de entrelinhas, cifrada. Precisava ser assim. A
Festa, de Ivan Ângelo, e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca,
são exemplos disso.
Enquanto o artigo de Stephan Kanitz conseguiu, provavelmente,
desestimular em muitos o prazer pela leitura ficcional, assustando-os e
implantando em suas mentes o temor pelas intenções ocultas do escritor, Amós
Oz, ao contrário, os atrai, referindo-se com muita graça e leveza, à
produção literária.
De início, fala da inveja mútua que existia entre ele e seu pai,
autor de livros acadêmicos. Este invejava-o por ser livre como um passarinho
ao escrever conforme quisesse, sem ficar confinado por todo tipo de busca e
pesquisa prévia, atrelado ao jugo de comparar fontes e fornecer provas. Ele,
por sua vez, invejava em seu pai justamente isso, ou seja, poder contar com
verdadeira bateria de apoio, livros, tabelas, referências, sem precisar
confrontar-se com a zombeteira página em branco.
É difícil começar, diz. E, com relação a esse começo, afirma
nele existir, sempre, um contrato prévio entre o escritor e o leitor,
havendo vários tipos de contrato, inclusive os fraudulentos em que o
escritor parece revelar todo tipo de segredo, para que o leitor confiante
morda a isca. Poderíamos pensar, a princípio, que ele igualmente está se
referindo às agendas ocultas de que fala Kanitz. Entretanto, não é o caso.
Amós Oz fala do contraste que pode surpreender o leitor quando a história
segue um caminho não imaginado por ele ao ler seu começo. E isto,
certamente, é o que a torna mais instigante e prazerosa a cada descoberta.
Embora nossa proposta, inicialmente, abrangesse, apenas, a
Introdução de seu livro, acrescentamos suas palavras constantes da
Conclusão:
“O jogo da leitura requer que você, leitor, assuma uma parte
ativa, traga o campo de sua experiência de vida e sua própria inocência, bem
como cuidado e astúcia. Em última análise, como em qualquer contrato, se
você não ler as letras miúdas, pode ser ludibriado, mas às vezes pode ser
ludibriado precisamente por se atolar nas letras miúdas e não conseguir ver
a floresta, de tanto olhar as árvores”.
Deixamos aqui, para o senhor Stephan Kanitz, a advertência do
escritor Amóz Oz.