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Resenha literária 

         

Revivendo Dalcídio Jurandir

 

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

 

A obra de Dalcídio Jurandir andava mesmo maltratada. Por parte das editoras, víamos a negligência de não fazer novas edições; de alguns autores, a não veiculação do nome do literato aos compêndios de literatura; dos leitores – cúmplices per omitionem – seu esquecimento gradual. Prova disso é que, se perguntarmos hoje a um escolar por Dalcídio Jurandir ou por sua obra, muitos dirão não conhecê-lo, ou, se o conhecem, não dispensam o rótulo de “literatura regionalista”.

Restrito a alguns meios intelectuais, a obra do autor sobreviveu na acolhida de críticos importantes como Benedito Nunes. Mas a literatura não vive apenas da potência da crítica; carece da cooperação de alguns, da acolhida do seu povo e da oferta generosa de seu autor principal (havendo esta última, talvez tenham faltado as duas anteriores).

Nascido em Marajó em 1909, Dalcídio despontou em 1941 ao vencer um concurso da revista Dom Casmurro, recebendo elogios de Oswald de Andrade, Sérgio Milliet e Álvaro Lins. Autor de obras como Passagem dos Inocentes (1963) e Primeira Manhã (1967) foi antes, com Belém do Grão Pará (1960), que recebeu o “Prêmio Paula Brito”, da Biblioteca do Estado da Guanabara, ponto que contribui com reconhecimento maior obtido com o “Prêmio Machado de Assis”, da Academia Brasileira de Letras em 1972.

Reconhecido em importância por nomes como Jorge Amado e Adonias Filho, Belém do Grão Pará se destacou, no cenário nacional de época – entre muitas obras literárias de valor – num período em que figuravam ao lado de nosso autor Rachel de Queiroz, Jackson de Figueiredo, Tristão de Ataíde, Mário Palmério, Otto Lara Resende, Hélio Silva entre tantos. A distinção explica-se pelos dotes de uma ficção sutil e uma prosa ímpar em elegância e objetividade. Constatação possível com essa passagem (p. 484) em que o autor descreve a euforia dos populares na ocasião do Círio de Nazaré:

 

“A Sé aguardava a imagem. Cobria-se de visões, de seu passado, a Cidade Velha. Mãe Ciana via o tempo velho chegando. Nasciam de novo, prateando sob o arvoredo antigo, aqueles igarapés em que índio andou, cabano viu. Ao pé do Castelo, as idosas gurijubas rabeavam. Desembarcavam pajés do Salgado, seus cachimbos acesos, os maracás, suas rezas. Das velhas barcas de Portugal pulavam as marujadas. E negros do Mazagão com seus tambores, suas vacas de promessas urravam no porto. Os tambores, dentro da Sé, a modo que estrondavam. Mãe Ciana trazia também seus pretos do Araquiçaua, os afogados tirava do fundo e do invisível, todos eles na Sé, guardando a imagem, falando suas tantas reclamações, seus ais. E os do Guamá, também não? O sono de Cobra Norato debaixo da Sé, a Mãe Ciana escutava.”

 

O romance em questão é um daqueles raros, no qual pode-se entender mais plenamente a arte como um pôr-se em obra da verdade, o que já transcende o rótulo de regional.

Com a dissolução do antigo Instituto Dalcídio Jurandir, que funcionou por cinco anos em parceria com a Fundação Casa de Rui Barbosa, teremos, doravante, os herdeiros do espólio do autor, recorrendo a novos meios para a difusão da sua obra.

Iniciativa que ao dar início a um novo Instituto, deverá fomentar pesquisas sobre a vida e obra do escritor e, quem sabe, proporcionar uma nova fase de recepção da literatura do autor, coincidente com a data de centenário de nascimento do mesmo.

 

 

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