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Resenha literária 

         

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

 

Acadêmico Titular da Academia Niteroiense de Letras. Professor substituto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ/FFP. Autor de Verdade-Metafísica-Poesia (Nitpress, 2007).

 

Um si maior para Sávio Soares de Sousa

 

Livro: Rapsódia para sanfona

Autor: Sávio Soares de Sousa

Editora: Traço & Foto

2008

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

 

Rapsódia é um tipo de composição musical de estrutura indefinida, reunindo vários temas de inspiração popular. Durante a Idade Média, rapsodos corriam as cidades cantando versos embalados por música. Com o passar do tempo, a música e suas letras em quadras ganharam acento erudito, a ponto de, hoje, conhecermos mais as obras célebres como a Rapsódias Húngaras de Liszt e a Rhapsody in Blue de Gershwin do que aquela forma original.

O livro Rapsódia para sanfona encaixa-se duplamente nessa descrição. Conjunto de muitos versos, reúne o popular e o erudito; as poesias de teor público e as maximamente autorais. A “rapsódia” de Sávio Soares de Sousa é uma seleta de trovas, gênero também secular e que o autor domina muito bem.

A obra obedece a uma interessante intuição, pretende retomar a forma erudita da trova e reconduzi-la a suas origens populares. Ora, se conhecíamos a tentativa de Fernando Pessoa em fazer isso (e seu êxito parcial), conheçamos o resultado feliz do livro aqui apreciado. As trovas de Sávio seguem a forma clássica: quatro versos metrificados, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo verso com o quarto (que geralmente concentra o efeito estético do poema, em seu desfecho inesperado ou espirituoso).

Não falta espírito em Rapsódia para sanfona! O autor maneja a palavra de modo a brincar com provérbios, flertar com a literatura culta e a revisitar muitas das formas do simbólico. Constata-se isso quando – remetendo-se ao conceito de inconsciente freudiano – diz o poeta (p.14):

 

“Forças ocultas sabotam

a consciência do cristão:

- anjos rezando no sótão,

- diabinhos no porão.”

 

Repleta de graça, esta é trova em sua fórmula precisa. Mas destaquemos a deliciosa ambigüidade que o “porão” traz no referido contexto. Outra amostra é vista nestes versos (p.23):

 

“Atirei um limão triste

no rumo do teu olhar:

ingrato amor, não me viste,

nem me ouviste suspirar...”

 

Com carga dramática, o significado aqui está entremeado no gesto do amante ao jogar o limão. Esse, popularmente, traduz uma insinuação de amor, emprestando rara sutileza a esta e outras trovas que variam sobre o mesmo tema.

Se for certo que a poesia é inteligência e carisma, Rapsódia para sanfona é um livro que estaria pronto para convencer até o mais cético dos leitores quanto a essa premissa. A mesma impressão se confirma na edição do livro, que traz na capa uma das últimas ilustrações que o desenhista Miguel Coelho produziu, e a assinatura da Traço & Foto, editora que há bastante tempo publica nomes e títulos escolhidos a dedo.

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