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Resenha literária

 

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

Acadêmico Titular da Academia Niteroiense de Letras. Professor substituto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ/FFP. Autor de Verdade-Metafísica-Poesia (Nitpress, 2007).

 

Livro: A Flor e o pecado

Autor: Jota Andrade

Editora: Nitpress

2005

 

Jota Andrade

Um romance de verdade

 

Existem livros que se pretendem romances; que contam estórias, sem dúvida! Mas seus autores ignoram o que é escrever romance. Daí, ao invés de um enredo romanesco com suas tensões, seus jogos de claro-escuro, sutilezas e densidades típicas deste gênero, temos os que nos lembram torneiras lassas de cujo bico escorre uma narrativa monótona num fio lento e babujado (e, acreditem! Ainda há os que, assim, se arvoram a escrever romances épicos, históricos!).

Nos últimos anos (tendo lido Mann, Musil e enfrentando há alguns meses os primeiros volumes da Comédia humana de Balzac), fiz pausa para ler o romance de Jota Andrade. Assevero: A Flor e o pecado é peça de valor em nossa atual cena literária.

No romance ambientado no interior do estado do Rio de Janeiro na década de 1940, temos, em linhas gerais, a história de Bianca, bela moça da cidade, vivendo novas experiências após seu divórcio. Sua relação com Marrom, um homem negro da fazenda, é o mote para um argumento sensível e engenhoso, que consegue retratar vivamente, além de um mundo campestre (e, de certo modo, ingênuo) sua mentalidade e costumes.

Suavidade, harmonia, melodia, fluidez, concisão e simplicidade são características da técnica e estilo pessoal de Jota Andrade. Traços que se expressam na construção de cada personagem, seja nos protagonistas Bianca e Marrom, ou nos coadjuvantes (como é o caso do menino Ratinho), repletos de vivacidade, movimento e verossimilhança.

Romance ficcional, mas com interferências biográficas, a interpenetração desses mundos é enfatizada no prefácio assinado por Márcia Pessanha. No aparato crítico, a ex-presidente do Cenáculo Fluminense de História e Letras faz arrojada análise do livro; é possível imaginar o trabalho de condensar em, duas páginas, o conteúdo preciso e revelador obtido por leitura tão técnica. No prefácio ela nos diz, com acerto, que: “O autor se propõe a revisitar sua origem humilde, os recantos afetivos e paisagísticos da ambiência bucólica da terra onde nasceu e viveu sua meninice. Por isso, observa-se no romance a articulação de realidades empíricas pragmáticas com o discurso ficcional”.

Criador imaginativo, Jota Andrade também se permite especular sobre os comportamentos humanos, seus labirintos, desejos e dilemas. Isso pode ser visto no capítulo De notícias e boatos, no qual o autor teoriza sobre as disposições que movem o falatório e as maledicências, chegando a resultados intrigantes. Embora hábil nessas articulações, o talento de sua prosa recai em sua narrativa romanesca, é isso que se vê no capítulo intitulado “Caminhando rumo ao passado”, oferecido, em pequeno trecho, ao repasto crítico de nosso leitor, ao fim desta resenha:

“As batidas ritmadas das patas de um cavalo marchador vieram despertá-la dos seus pensamentos. Havia parado um pouco para descansar, pois já havia percorrido um bom pedaço do caminho. Sentada em uma pedra à beira do riacho, admirava a limpeza das águas que atravessavam a estrada sob tosca ponte de madeira. O cavaleiro fez uma mesura e a cumprimentou: — Boa tarde, senhorita! Posso lhe ajudar em alguma coisa? — Não! – ela não queria nada de um desconhecido. — Posso levar sua bagagem. É só dizer onde entregar – insistiu diante do silêncio da moça. — Não. Ela não queria e até se sentiu um pouco agredida pela insistência, fato este que ele deve ter percebido, visto que lhe pediu desculpas, despedindo-se, gentilmente, e seguiu em frente, cavalgando seu garboso cavalo, enquanto ela ficava com suas incômodas bolsas e com sérias dúvidas sobre a natureza dos seus sentimentos. Por que se sentir tão melindrada por uma simples e gentil oferta de ajuda? Pois, não havia como negar que o homem fora gentil, o que seguramente, ele não poderia dizer dela, que nem sequer agradeceu a oferta de ajuda, além do último ‘não’ que lhe saiu com certa rudeza. Se fosse uma mulher a lhe oferecer ajuda, ela teria recusado? Ou será que foi pelo fato de ele ser preto?”

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