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Resenha
literária
Roberto
S. Kahlmeyer-Mertens Acadêmico
Titular da Academia Niteroiense de
Letras.
Autora: Liane Arêas Editora: Nitpress Ano: 2010
Liane
Arêas Até a presente data,
talvez a última e mais
substancial notícia que tínhamos sobre a vida e obra do
poeta fluminense B.
Lopes (1859-1916) teria sido dada por José Guilherme Merquior
quando, O leitor brasileiro ficaria,
assim,
obrigado a se contentar com essas migalhas informativas (quase um
jejum) se
desejasse conhecer a biobibliografia de B. Lopes em um estudo
crítico. Apenas
no ano passado, foi publicado, integrando a Coleção
Introdução aos Clássicos Fluminenses,
o título B.
Lopes – O poeta fidalgo (Nitpress, 2010),
saneando esta
carência. A quem devemos cumprimentar por essa bela coisa? Seu
nome é Liane
Arêas, trata-se de uma orgulhosa integrante do Cenáculo Fluminense de
História e Letras e que,
com o referido trabalho, não só debuta com seu primeiro
livro quanto se mostra
– incontestavelmente – uma competente e hábil
pesquisadora literária. Dizemos
isso, pois, a obra, por sua amplitude e consistência, nos permite
entrever
quanta disciplina, empenho e critério foram a ela dispensados. Trata-se de um trabalho que,
transcendendo
aos vagos padrões qualitativos do meio
acadêmico-literário, satisfaz aos
rigores exigidos nos meios universitários, o que faz de Liane
Arêas um notório
saber quando o assunto é a poesia “belopeana”. Contando com um ensaio
introdutório que
situa B. Lopes em seu contexto de época e em seu métier
literário, Liane Arêas
permite que conheçamos traços da personalidade do autor,
de seu estilo e
motivações poéticas. O reencontro com B. Lopes
fica garantido quando a autora
fala da formação do poeta e de sua aderência
à intelectualidade da época; das
raízes e origens daquela obra poética; da
trajetória e dos inúmeros êxitos que
o poeta acumulou e, por fim, do declínio e morte do poeta. Neste
trajeto, é
preciso ressaltar a coerência, a coesão e a
atenção com que poesias de
diferentes fases são analisadas, interpretadas e decifradas com
um método muito
parecido com o da crítica literária Bella Josef. Atenção especial
merece a segunda parte do
livro. Trata-se de uma seleção bastante completa dos
poemas de B. Lopes. Na
verdade, tal seleção é tão completa e
tão fidedignamente estabelecida
(atendendo, inclusive, a requisitos filológicos) que, diante da
escassez de
novas edições das obras do poeta rio-bonitense, o livro,
aqui em apreço, bem
constitui fonte de acesso às poesias do autor. Um pouco do poeta
no livro?
Registremos aqui a beleza constante à página 131,
retirada da obra Helenos
(1901): Paraíso
perdido
Outro, não eu, que desespero, ao cabo De, em pedrarias de arte e versos de ouro, Ter dissipado todo o meu tesouro, Como os florins e as jóias de um nababo; Outro, não eu, que para o chão desabo Esquecendo-te as culpas e o desdouro, E a teus pés de marfim, como o rei mouro Em torrentes de lágrimas acabo; Outro conspurca-te a beleza augusta, Cujo anseio de posse ainda me custa Como um verme faminto andar de rastros. E mais deploro este meu sonho falso Ao recordar que andei no teu encalço Pelo caminho rútilo dos astros!” Fraseologista exímio
(como foi seu amigo
Cruz e Sousa), o parnasiano B. Lopes, a meio caminho do simbolismo,
revela aqui
um talento que não pode ficar nas brumas. Daí,
após estas palavras, é preciso
fazer coro com editor Luiz Augusto Erthal quando, no prefácio ao
livro
enfocado, assevera: “Tamanha riqueza literária, tal
história de vida, a magia
daquela boemia efervescente e produtiva, na companhia de figuras
notáveis de
literatos como Machado de Assis e outros, que gravitavam entre a
Confeitaria
Colombo, os jornais, as livrarias e os cafés no final do
século XIX, não são para
serem esquecidas” (p.6). Sim! Se depender do livro Liane
Arêas o
mundo e o universo poético de B. Lopes não será
esquecido.
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