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Resenha literária

Roberto Kahlmeyer

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

Acadêmico Titular da Academia Niteroiense de Letras.

livro o poeta fidalgo 

Livro: B. Lopes – O poeta fidalgo
Autora: Liane Arêas
Editora: Nitpress
Ano: 2010

Liane Areas

Liane Arêas

 

Até a presente data, talvez a última e mais substancial notícia que tínhamos sobre a vida e obra do poeta fluminense B. Lopes (1859-1916) teria sido dada por José Guilherme Merquior quando, em seu De Anchieta a Euclides (1979), o autor dedica quase sete páginas ao dito Poeta Fidalgo. No entanto, o B. Lopes ali apresentado está longe de retratar autor de Rio Bonito em seu espectro e magnitude. Para Merquior, como ele mesmo afirma em outro lugar (Formalismo e tradição moderna, 1974), B. Lopes ainda seria um autor pequeno burguês, “em contraste com muitos românticos egressos da nobreza ou da alta burguesia rural ou citadina” (p.44).

O leitor brasileiro ficaria, assim, obrigado a se contentar com essas migalhas informativas (quase um jejum) se desejasse conhecer a biobibliografia de B. Lopes em um estudo crítico. Apenas no ano passado, foi publicado, integrando a Coleção Introdução aos Clássicos Fluminenses, o título B. Lopes – O poeta fidalgo (Nitpress, 2010), saneando esta carência. A quem devemos cumprimentar por essa bela coisa? Seu nome é Liane Arêas, trata-se de uma orgulhosa integrante do Cenáculo Fluminense de História e Letras e que, com o referido trabalho, não só debuta com seu primeiro livro quanto se mostra – incontestavelmente – uma competente e hábil pesquisadora literária. Dizemos isso, pois, a obra, por sua amplitude e consistência, nos permite entrever quanta disciplina, empenho e critério foram a ela dispensados.

Trata-se de um trabalho que, transcendendo aos vagos padrões qualitativos do meio acadêmico-literário, satisfaz aos rigores exigidos nos meios universitários, o que faz de Liane Arêas um notório saber quando o assunto é a poesia “belopeana”.

Contando com um ensaio introdutório que situa B. Lopes em seu contexto de época e em seu métier literário, Liane Arêas permite que conheçamos traços da personalidade do autor, de seu estilo e motivações poéticas. O reencontro com B. Lopes fica garantido quando a autora fala da formação do poeta e de sua aderência à intelectualidade da época; das raízes e origens daquela obra poética; da trajetória e dos inúmeros êxitos que o poeta acumulou e, por fim, do declínio e morte do poeta. Neste trajeto, é preciso ressaltar a coerência, a coesão e a atenção com que poesias de diferentes fases são analisadas, interpretadas e decifradas com um método muito parecido com o da crítica literária Bella Josef.

Atenção especial merece a segunda parte do livro. Trata-se de uma seleção bastante completa dos poemas de B. Lopes. Na verdade, tal seleção é tão completa e tão fidedignamente estabelecida (atendendo, inclusive, a requisitos filológicos) que, diante da escassez de novas edições das obras do poeta rio-bonitense, o livro, aqui em apreço, bem constitui fonte de acesso às poesias do autor. Um pouco do poeta no livro? Registremos aqui a beleza constante à página 131, retirada da obra Helenos (1901):

 

Paraíso perdido
 
Outro, não eu, que desespero, ao cabo
De, em pedrarias de arte e versos de ouro,
Ter dissipado todo o meu tesouro,
Como os florins e as jóias de um nababo;
 
Outro, não eu, que para o chão desabo
Esquecendo-te as culpas e o desdouro,
E a teus pés de marfim, como o rei mouro
Em torrentes de lágrimas acabo;
 
Outro conspurca-te a beleza augusta,
Cujo anseio de posse ainda me custa
Como um verme faminto andar de rastros.
 
E mais deploro este meu sonho falso
Ao recordar que andei no teu encalço
Pelo caminho rútilo dos astros!”

 

Fraseologista exímio (como foi seu amigo Cruz e Sousa), o parnasiano B. Lopes, a meio caminho do simbolismo, revela aqui um talento que não pode ficar nas brumas. Daí, após estas palavras, é preciso fazer coro com editor Luiz Augusto Erthal quando, no prefácio ao livro enfocado, assevera: “Tamanha riqueza literária, tal história de vida, a magia daquela boemia efervescente e produtiva, na companhia de figuras notáveis de literatos como Machado de Assis e outros, que gravitavam entre a Confeitaria Colombo, os jornais, as livrarias e os cafés no final do século XIX, não são para serem esquecidas” (p.6).

Sim! Se depender do livro Liane Arêas o mundo e o universo poético de B. Lopes não será esquecido.

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