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![]() Saia da gaveta
Silvia Regina King Jeck. Gaúcha de Pelotas. Especialista em Educação / Administração Escolar. Graduada em Letras Anglo-Germânicas pela Universidade Católica de Pelotas. Aposentada, trabalha com aulas de conversação em inglês, traduções e revisões de textos.
Leibniz e a transcendência do amor na Polinésia
Queixei-me de baratas. Estava difícil entender porque meu apartamento, mantido sempre tão limpinho, fora o escolhido por aquelas migrantes. Iracema - que não é “a dos lábios de mel” – trabalha para mim desde que chegou ao Rio, vinda do sertão nordestino. Seja por identificação ou por solidariedade de também migrante, ela tomou para si a tarefa de dialogar com as invasoras. Diariamente podia ser vista demorando-se no exame de cantos e frestas. Eu continuava a queixar-me de baratas. Procurei o zelador na tentativa de descobrir se outras pessoas também se queixavam. Ele, então, me contou que quatro outros moradores daquela coluna tinham passado pela mesma situação e como haviam resolvido o problema . Contou-me, inclusive, que o último apartamento infestado ficava exatamente embaixo do meu. A proprietária resolvera a situação com dedetização .Resolvi fazer o mesmo. As migrantes em meu território eram prováveis heróicas sobreviventes do andar de baixo. Tal qual Iracema! Quando lhe comuniquei minha decisão percebi um leve frêmito, como que de angústia, percorrer seu corpo. Ela, que tentava fugir de dentro de si mesma, assaltada que era pelo próprio âmago, agarrava-se às novas amigas de destino. Como poderia eu passar-lhe esperança? E esperança se passa? Cultivo um pequeno jardim de gerânios e temperos em minha varanda. Dando o braço à Iracema propus-lhe a tarefa de cuidarmos juntas daquele pedacinho de Paraíso. As plantas certamente precisariam de cuidados mais do que especiais após a dedetização. E Iracema também. Não sei se Leibniz tem alguma coisa a ver com a transcendência do amor na Polinésia, a não ser, talvez, que, naquele paraíso natural,o amor seja o mel dos deuses, mas eu venho encontrando muita alegria no amor que existe por aqui. Sei que há um mundo melhor, mas é caríssimo.
Hortências azuis
Corina é uma daquelas pessoas que passam quase desapercebidas: cabelo escorrido e ralo, cor de palha de milho seca, pele transparente, olhos escondidos por um olhar sempre cabisbaixo e por óculos de grossos aros, caminhar miudinho, como se fosse árdua tarefa carregar seu metro e meio de altura. Quando a conheci, em seus dezoito anos de idade, ela já era mãe-solteira de uma menininha de dois anos. As duas viviam em uma casa pequena, no meio de um jardim de hortências azuis. Ali a vida transcorria igualzinha todos os dias. Corina levantava cedo, fazia café para ela e sua filha e depois a levava à creche. Na volta, antes de providenciar o almoço que também já seria o jantar, cuidava do seu jardim. À tarde ia para a biblioteca da cidade onde conseguira um emprego de meio expediente como ordenadora de livros, como se apelidara. Cinco horas buscava a garota e se preparava para as atividades do final do dia e para as novelas de que tanto gostava. E assim iam-se passando os meses daquela primavera. Corina não tinha o hábito de ler. Passava as tardes cercada de livros mas nunca tivera a curiosidade de folheá-los, meramente os ordenava. Agora... seu jardim de hortências... este sim, era sua fascinação. Sentia-se segura ali, no meio de todo aquele azul. Era feliz? Não se dava tempo para este pensamento. Às vezes, ao deitar, no silêncio de noite, sentia um arremedo de incompletude, mas virava de lado e dormia. Foi então que, certa tarde, ao ordenar alguns romances, vislumbrou, numa capa, o desenho de uma hortência azul. E alguma coisa a incomodou. Como alguém se atrevia a perturbar suas flores? Como é que alguém escondia uma linda hortência cor lavanda entre as palavras de um título de livro ao invés da deixá-la reinar soberana sob a luz do sol, a que pertencia? E Corina se atreveu: abriu o livro com um certo descaso e começou a ler: “Corria o mês dezembro em Gramado. Marina e suas irmãs davam sua caminhada matinal por entre aquele campo de hortências azuis, tão vasto que a vista não alcançava....” Corina agora já sentara com o livro aberto e a leitura em andamento. E se indagava: que tipo de comunhão poderia existir entre ela e personagens que, como ela, pareciam amar hortências? Seria possível que hortências transpusessem o portão de seu jardim e fossem passear na imaginação de outras pessoas? E, naquela noite, ao recostar-se na cama para continuar a leitura, pela primeira vez deu-se conta de que, afinal, não estava assim tão sozinha. Não sabia, mas tinha tido sua primeira epifania.
A cidade de minha alma (Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino)
A cidade de minha alma é bem pequenina. Surgiu de uma nascente inesperada e logo começou a crescer, entre os tropeços nos pedregulhos das montanhas escarpadas, e entre os córregos tortuosos de águas geladas e cristalinas. Para alcançar a cidade de minha alma o caminhante necessita de espírito aberto e honesto. precisa também estar pleno de curiosidade e de vontade de ousar. Quem chega ao vale onde se aninha a cidade de minha alma fica tomado de assombro pelos contrastes: por um lado o verde nas campinas da esperança, por outro a aridez nas areias da incerteza. As caminhadas, asseguro, são assim... sempre cheias de descobertas, e de encantos e surpresas a cada passo. Na cidade de minha alma se busca aconchego e se busca o paraíso. Para o primeiro, ofereço ao caminhante compartilhar o fogo comunitário da purificação e o sensível acalanto que permeia todos os espaços. Para o segundo... bem aí, a escolha fica a critério de cada caminhante. Devo, contudo, alertar que, se o caminhante for atento, perceberá, na entrada do paraíso, a trama de sonhos que vou tecendo e o desejo de felicidade que daí resulta.
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