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Saia da gaveta

Consultora e revisora, Janice Brito Mansur é professora de língua portuguesa, literaturas e produção textual, graduada e pós-graduada em Letras pela Universidade Federal Fluminense.

 

Vidrinhos

 

Perto do lago, a bela menininha de cachinhos dourados brincava entretida com as “chumigas” que passavam ao largo carregando folhinhas picadas nas costas.

Sempre foi assim, gostava de distrair-se com bichinhos mínimos e passava horas acompanhando-os. Uns guardava em caixinhas de papelão furadas, outros queria por força colocar em vidrinhos para poder vê-los com mais facilidade. Porém, pequenina, esquecia-se de que nos vidros, lacrados, sem ar nem luz, morreriam – lembrava-lhe sua doce e presente mãe.

Clara cresceu rápido e em seus olhos azuis se refletiam a luz de sua infância pura e feliz vivida à beira do lago sereno de sua propriedade.

Seu pai, fazendeiro rico, querendo seu melhor, resolveu mandá-la a um internato onde aprenderia de tudo para a vida. Colégio de abastados e curiosos. Talvez se tornasse uma excelente e prendada dona de casa ou uma famosa cientista, mais ao seu estilo.

Muito dada, fez amizade com todos e era estimadíssima pelos lentes que lá havia. Imiscuía-se em todas as disciplinas e não havia matéria que não dominasse. No jornal da comunidade local escrevia sobre vários assuntos e punha seus poemas e artigos científicos repletos de reflexões filosóficas. Expressava-se muito bem e com clareza, atributo que lhe era peculiar.

Nas férias do verão seguinte, quando retornara a casa, soubera da verdade que lhe haviam escondido por seis meses. Sua mãe não resistira à depressão que se exacerbara, ceifando-lhe a vida. Mesmo aos dezoito incompletos, Clara tece um comentário entristecida com seu pai, que não consegue atinar seu sentido:

─ É, meu pai, você não sabe, mas minha mãe esteve por muito tempo em vidrinhos.

 

 

 

 

Imprevisibilidade

 

“...então, tendo sido importadas da Ásia para os Estados Unidos da América, a fim de controlar pragas na agricultura, espalharam-se por todo o continente e outros países.

Segundo pesquisa de Roy Anderson, realizada em 2005, a infestação desses escaravelhos, da família coccinellidae, continua a ocorrer indiscriminadamente por várias cidades da região, causando alergias,...”

Noticiava o rádio, alto e bom som na sala de estar, onde uma menininha irlandesa se distraía com um pequenino inseto entre os dedos.

Logo, levanta-se, vai até a cozinha onde está sua mãe e lhe mostra um inofensivo inseto de carapaça laranja com bolinhas pretas.

─ Mãe, olha que linda!

─ É filha, pegou lá fora na árvore?

─ Não, mãe. Lá na sala... e tem mais. Posso ficar com elas?

─ Com elas?

De pronto, dirigem-se para a sala. Enquanto a mãe olha imóvel o “enxame”, o “batalhão”, a enorme monstruosidade que se espalha pelo canto da parede, o rádio continua.

“...advertem ainda que as famílias, a fim de se resguardar, devem ter muito cuidado, pois essa espécie, Harmonia Axyridis, popularmente conhecida também por joaninha, é extremamente predadora, atacando e se alimentando das larvas de outras joaninhas para sobreviver e aumentar sua prole...”

 

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