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![]() Saia da gaveta
Clara Vasconcelos é autora do blog "Palavras o Vento Leva".
Coletivo Absoluto
Tenho muitos dentro de mim. Tenho que ser apenas um, mas sou muitos. Trago em mim toda a variedade impossível dos coletivos. Tenho personagens. Tenho diversos interesses - contrários? Por quê? Por que devemos ser sempre os mesmos todos os dias? O mesmo estilo, as mesmas palavras. Não. São muitos dentro de mim. E não se calam.
Sereno
Eu caminho pelos lugares onde estivemos. As coisas não sentem falta de nós. Tudo permanece. Eu caminho e finjo que não percebo a intocável quietude das coisas... Nada as demove: só eu sinto a tua falta.
Arpoador
Ele sentou ao meu lado. O negrume denso da noite caindo sobre nós. O som bravo das ondas sossegando tudo.
Sapatos Vermelhos I
Ele abriu lentamente a porta e entrou no quarto. Trazia um ramalhete de flores do campo que colocou num copo de plástico ao lado da cama levemente erguida. Olhou triste para o soro que pingava como um conta-gotas. Ela abriu os olhos. Não dormia, afinal. Tentou sorrir. Ele retribuiu o que pensou ser um sorriso. Quero ver a praia, ela disse. Vinha pedindo há dias. O coração dele se machucava a cada vez que ela pedia. E se ela não vivesse muito mais? Valeria a pena, no final das contas, negar-lhe? Ela adivinhava. Quero ver o mar, Francisco. Me leva... Agora. Ele tinha lágrimas nos olhos e a voz trêmula quando disse: você pode se sentir mal... Pode não fazer bem pra você. Não seria melhor esperarmos que você se sinta melhor? Tenho certeza de que... Francisco, eu não vou melhorar. Dessa vez ele não teve forças pra dizer que aquilo era bobagem. Fechou os olhos cansado e deixou as lágrimas correrem livres. Ela pediu de novo: agora. Ele abriu o armário, tirou umas roupas e o par de sapatos vermelhos que ela usava quando chegou ao hospital 20 quilos atrás. Chamou uma enfermeira e foi até à recepção. Pediu para assinar o termo de responsabilidade. A mulher atrás do balcão olhou atônita para ele. Depois sorriu compreendendo. Disse que prepararia o termo o mais rápido possível. Então ele voltou ao quarto, ajudou-a a se trocar, a calçar os sapatos vermelhos. Tudo estava largo. As roupas eram irreparavelmente inapropriadas. Mas parecia que ela tinha recuperado algo do brilho dos seus olhos. Agora tão opacos. Ele desceu com ela nos braços, assinou o termo no balcão enquanto as pessoas que passavam observavam assustadas. Então saíram. Duas quadras e já podiam ver o mar. Ele a pousou na areia por um instante enquanto tirava o sapato social. Desabotoou a camisa amassada, enrolou as mangas e a retomou nos braços. Mais próximos da água, voltaram a se sentar. Ela encostada no peito dele. Observando. Sim, agora era um sorriso... E haveria lágrimas de emoção se não se sentisse tão cansada. Sorriu. Sorriu como se ainda fosse aquela menina forte e saudável, dançando pela sala, sapateando no chão os seus sapatos novos de um vermelho vibrante. Ela o olhou por um tempo, agradecida. Por instantes, ele sorriu também despreocupado. Ficaram assim abraçados por muito tempo olhando o mar. No meio da espuma das ondas quebrando, uma gaivota atrevida pescava. Você viu? Mas ela não respondeu... Um vendedor ambulante observa um homem na praia chorando abraçado a uma mulher que parece morta
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