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![]() Saia da gaveta (Seção destinada à divulgação de textos de autores que não possuem livro publicado).
Bianca Teixeira Barreto, quase 32, lê e escreve estórias – e histórias – desde pequenininha. Apaixonada pelas palavras, talvez tenha sido esta sua primeira identidade: escritora dela mesma. Hoje, a ex-aluna do Colégio Pedro II é casada, mãe de dois, médica intensivista, equilibrista de muitas tarefas, funções e facetas. Segue acreditando que a palavra escrita é mesmo um jeito especial de revelar e reinventar o mundo.
Texto nº 1
Ela estava calma mesmo sem ter tomado o remédio daquela manhã. Tomara só um pouco de café com pão da véspera, pois o leite tinha acabado e estava com preguiça demais para ir até a padaria. O remédio disse para si mesma que acabara, mas tinha sido ela própria a escondê-lo para não achar. Ela estava mesmo calma e queria ir à praia, ou à vendinha comprar leite, ou então ao cemitério visitar o filhinho defunto morto no parto. Queria sair logo para não sentir o sono do remédio, mas não tinha tomado remédio naquela manhã e, antes de sair, tinha ainda que lavar o copo de geleia que usara para beber café. Mas como, na verdade, não ligava para essas coisas, saiu deixando tudo para trás e um bilhete para ninguém, pois não havia quem chegasse. E foi andando assim, sem ir a nenhum lugar, com uma paz santa mesmo sem remédio e com a confusão de ideias que a acompanhava sempre. Pensou que nunca tinha lido um livro e que nem sabia ler direito, e que, para dizer a verdade, nem pensar sabia muito bem. Talvez fosse porque, quando menina, fugia da escola para soltar pipa justo quando a professora ensinava as palavras. Ela passava tardes a olhar o céu azul colorido pelas rabiolas, pensando que bonito as pipas no alto... O que pensava também era assim: voava alto e sem direção. Ela tinha ouvido na novela a mocinha dizer que cursava Direito e achou muito engraçado lembrar isso logo agora e riu que nunca poderia ser como a moça da televisão, já que fazia tudo errado. Mas pensava isso sem nem se dar conta e sem nem sofrer quando lembrava que o marido, que era um homem correto e trabalhador, tinha ido embora porque ela era muito confusa e tinha voltado a beber... Era só um pouquinho para deixar a cabeça dormente e parar com os pensamentos que vinham e vinham; mas ele não entendia e muito menos ela conseguia explicar. Ela ia pensando como se nem tivesse pensando, como se fosse só um corpo meio desengonçado, uma camisa sem combinar com a saia que ia andando, andando, sem a pretensão de chegar a nenhum lugar, de seguir nenhum caminho. Porém o fato é que todo o lugar por onde se passa passa a ser um caminho, só por meio de cada passo se encontra o que está mais à frente e, qual não foi a surpresa quando ela se viu diante de uma flor, feiosa, mas a mais bonita daquele momento. Daquela vez, o pensamento não tinha voado alto agarrado às rabiolas das pipas de sua infância, estava no chão, no caminho até à florzinha que, ela sabia, era feiosa, como ela, mas tinha um tipo de beleza e perfume... E desejou que alguém a enxergasse flor, que encontrassem beleza onde ela mesma só se encontrava erva daninha... Sentiu-se tão profundamente triste que até olhou em volta procurando alguém, porque sozinha não se conhecia capaz de tamanha intensidade. Minha personagem sem nome, que eu desejara assim para não chamá-la com o nome de ninguém e para que, ao mesmo tempo poder chamá-la por todos os nomes, ela, tão diferente de mim, era minha projeção no espelho: objeto e imagem com a cabeça doendo de tanto pensar alto que nem pipa. Não tinha aprendido muito sobre as palavras, mas olhar o céu lhe dera uma sensibilidade azul e agora ela me dava a resposta. Ela descobrira o que há de bonito e trágico, uma transformação no pensamento que passava de confuso a simples, tão simples que quase banal: que os caminhos até às flores não podem ser construídos, eles se criam sob os pés e tomam o rumo próprio, para dentro, que para se descobrir girassóis em canteiros, há que tê-los antes no próprio jardim. E eu me acalmei da agonia e aceitei que não há mesmo como chegar a alguns espaços, embora sejam mesmo belos, nem se deixar tocar por certas pessoas, embora sejam boas; que não há outro caminho possível senão o que nos descobre, nos inaugura belos. E pude então seguir dentro do ônibus, sem saber exatamente onde ele me levaria, mas já sabendo do ponto de partida. E minha personagem, coitada? Será que alguém descobriria o caminho para as flores que traz dentro? Será que descobriria ela mesma seu próprio caminho, fosse qual fosse? Quem sabe um novo bebê, a volta do marido, ou nada disso, apenas uma dose cavalar do remédio... Ela estava muito triste, triste como nunca, mais ainda porque estava esfriando e estava sem seu casaquinho verde. Pensou num copo de café com leite quente e umas meias nos pés e quase sorriu, seria bom mesmo... Quase sorriu, pressentindo o calor. Seguiu a pé para a padaria com os trocados que lhe sobravam no bolso; compraria leite e pão, se desse sorte esse estaria saindo do forno; depois, voltaria para a casa, prepararia a mesa com seu prato mais bonito e comeria com calma suas delícias, como se fosse visita e, quando olhasse para o céu, sabia que não avistaria pipas... *** Texto nº 2
Nunca tinha ido muito longe. Nunca nem cogitara mudar de bairro. Tomava todo dia café e pão com manteiga no mesmo lugar. Parava o carro na mesma vaga do lado da padaria e já nem precisava pedir: quando o via, a menina já gritava para a cozinha põe o pão e ia tirar o café. Ela dava bom-dia, ele respondia bom-dia, comia o pão, bebia o café, ela desejava bom-dia e ele respondia amém. Desde cedo, sabia do futuro: seguiria a carreira do pai. Seu padrinho, o patrão do pai, repetia desde sempre que seu lugar no escritório estava garantido, uma mesa ao lado da sua. Faria toda a contabilidade, cuidaria dos arquivos e só com tudo nas mãos do único afilhado teria certeza de que estaria tudo no devido lugar. Era tímido com as meninas e teria casado com a única namorada se ela tivesse aceitado o pedido feito no dia da formatura. Mas ela preferiu estudar na capital. Ele nunca se recuperou. Como, se ele era um tão bom partido?!... A mãe toda vida concordou, ela nunca foi moça para você, e vez ou outra lembrava que as mulheres são mesmo assim... Teve o mesmo carro por quase dez anos e, quando vendeu, estava novo ainda de tanto que o tinha economizado. Tinha poucas e boas roupas que a mãe comprava. Não era gordo nem magro, alto nem baixo. Fazia a barba toda noite. Tinha uma boa caderneta de poupança para garantir o sossego dos velhos. Tinha dois únicos e grandes amigos do tempo do ginásio e só com eles, raramente, bebia duas cervejas, falava umas bobagens e dava poucas risadas. Sempre tomava um café antes de voltar a casa, para que os pais não o vissem naquele estado. Já tinha trinta e sete. Não tinha filhos. Numa noite, depois do mesmo dia de todos os dias, depois de arrumar na cadeira a roupa para o dia seguinte, enquanto escovava os dentes, ao olhar no espelho não viu nada. Não viu os olhos pequenos, o cabelo ralo nem o queixo anguloso. Não viu a cicatriz de quando caiu da bicicleta e abriu o supercílio. Não viu as rugas que se formavam quando ficava nervoso e franzia a testa. Nem o jeito que mordia os lábios. Não enxergou o menino que sonhou ser astronauta, aviador, jogador de futebol, professor de matemática nem o que queria ir à Disneylândia. Não enxergou o rapaz doido por descobrir as meninas, por ser pai de família, com uma casa com quintal, três filhos e um cachorro dos grandes. Não viu o profissional que sonhou ser, nem o marido, nem o pai. Nem nada. Só enxergava o filho do pai, o filho da mãe, o afilhado do padrinho. E mais nada. A mãe gritou boa-noite do outro quarto e, enquanto colocava o sapato, respondeu boa-noite. E depois saiu, sem nem levar chaves, sem levar roupas, sem se despedir. Só ele. No aeroporto, no primeiro guichê, comprou passagem para o primeiro voo, não importava o lugar. Não despachou nenhuma bagagem. Não tinha nada. Quando entrou no avião e viu a pista pela frente, comprida, o horizonte no final, o mundo tão grande, mordeu os lábios de pavor e ansiedade. Nunca tinha voado de avião. Nunca tinha voado, em verdade. A testa estava franzida, ele suava e doía o estômago. De repente, o barulho das turbinas, a velocidade, a velocidade... o avião perdendo o contato com o solo, a pressão na cabeça, a mãe, o pai, o padrinho, a noiva de quem nunca mais tivera notícia, seus dois amigos, o avião ganhava altura, ele estava voando, ele estava voando... Ele estava deixando tudo para trás. Ele estava indo. *** Texto nº 3
Quando ele levantava do colchão, era noite e todos ainda dormiam: as crianças na sala, cada uma em um sofá, a cachorra no tapete em frente ao fogão, a mulher e o bebê na cama de casal. O banho era tomado de véspera e a roupa ele mesmo já deixava passada. A lata de torrar amendoins, os sapatos e a mochila com os amendoins, os fósforos, um vidro de perfume, moedas para servir de troco; tudo ficava ao lado da porta. Não precisava de muito mais que oito minutos para levantar, resolver suas necessidades no banheiro e estar vestido: calça, camisa, cinto, meia e sapato. Pronto. Só então, já na porta, abria os olhos. Ali, ele efetivamente acordava. Enquanto caminhava até o ponto de ônibus, fazia suas orações. A barriga roncava de fome e a pele crispava com o vento que empurrava a noite para o outro lado e trazia o dia. Era amigo do motorista e do trocador; entrava e já passava sua lata para viajar por trás da roleta. Fazia questão de pagar a passagem. Ria: sem pagar já é demais!! Ele sentava sempre no mesmo banco e, na metade da viagem, cedia lugar à moça com o bebê de colo que, àquela hora, estava sempre chorando. A moça sussurrava as mesmas palavras de acalmar criança, que chorava, chorava, depois dormia. E ele, todo dia naquele mesmo horário, olhava para o bebê, lembrava-se dos filhos e sentia saudade. Dali para frente, a viagem passava rápido, como tinha sido o tempo desde que a mais velha nascera. A chegada ao Rio de Janeiro do casal com um bebê recém-nascido, o tempo passado de favor na casa da prima de sua mãe, a esposa lavando roupa para fora. Naquele tempo, ela tinha o gosto em trabalhar para o sustento da família. Ele arranjou um emprego de contínuo, perto da Praça da Bandeira. Andava muito, o dia todo. Andava em vez de pegar ônibus para economizar o das passagens e, por isso, sua primeira filha tomou leite com Nescau duas vezes por dia. Conseguiram arrumar uma casinha lá pra dentro de Caxias, quarto, cozinha junto da sala e banheiro. A menina crescia e quando teve três anos, a mulher engravidou novamente. Não estava nos planos, mas criança é coisa de Deus e foi bem-vinda. Para ganhar mais dinheiro, quando acabava seu expediente ele lavava os táxis que formavam uma enorme fila, aguardando pelo abastecimento no posto de gasolina ali próximo. Nasceu um menino. Ele sempre quis um filho homem. Ganhou muita coisa. Os patrões do escritório gostavam dele. Tinha feito bons amigos: os frentistas, os motoristas de táxi, o homem do amendoim e as crianças que vendiam bala e lavavam os vidros. A vida já não era tão dura como no nascimento da filha. A mulher já não precisava lavar roupas, só passava duas vezes na semana as roupas de uma madame que morava na Zona Sul. Ganhavam tudo o que não cabia mais nos filhos dela, ganhavam biscoito e leite. Iam à igreja aos domingos. O dinheiro dava até para uns luxos: refrigerante nos finais de semana, bolo com brigadeiro nos aniversários das crianças... Ele agradecia. Ficou amigo, bem amigo, do moço do amendoim. Gostava dos moleques, seus filhos, que vendiam bala quando voltavam da escola. Rezava para não precisar que os filhos fizessem o mesmo. Rezava para que, um dia, eles também não precisassem mais. Num fim de semana, foi com a família inteira conhecer a casa do amigo; as esposas se conheceram, e logo já estavam íntimas, as crianças brincaram juntas e eles já eram compadres. Quando aconteceu tudo aquilo, não poderia ter agido diferente. Seu amigo atropelado no mesmo sinal onde vendia os amendoins, onde estava sempre sorrindo, com um olho nos carros e o outro nos filhos correndo, alegres, barulhentos. Ainda chegou o bombeiro, colocou o compadre dentro da ambulância, ele ficou do lado de fora, abraçado com os meninos, barulhentos de desespero. Levaram para o hospital, mas ele não resistiu. Tratou de tudo. Sua esposa e as crianças consolaram a viúva, distraíram os meninos. O enterro estava cheio; seu compadre era querido... Quando o caixão baixou e ele se despediu definitivamente do seu amigo, teve certeza do que devia fazer. Pediu para ficar com a lata de torrar amendoins, pediu demissão no escritório e avisou à viúva que não se preocupasse, que cuidaria dos meninos. A mulher nunca se conformou; bateu o telefone quando a esposa do compadre tentou agradecer... Fez de tudo para convencê-lo, argumentou que estava grávida novamente, que o dinheiro não daria. O que ele fazia era motivo para ninguém se preocupar, nem ela nem seu compadre. E, de fato, nunca faltou dinheiro. De fato, os meninos continuavam na escola e levando um dinheirinho para casa no final dos dias. De fato, foi ali que ele passou a não dormir na cama do casal.
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